Eu já havia passado por mais de
quinze cidades na Europa, muitas das quais não tinha lugar para dormir, quando cheguei
ao aeroporto de Girona, uma cidade próxima à Barcelona, na Catalunha, em que o
aeroporto é utilizado para voos domésticos, como um Santos Dummont no Rio de
Janeiro, desafogando o aeroporto internacional. Estava lá para pegar um trem para
Paris na estação próxima, no dia seguinte, e pretendia, para evitar custo de
estadia, dormir por ali mesmo.
Cheguei em torno das onze da
noite, me encontrei um canto e dormi. No meio da madrugada fui acordado a
chutes e xingamentos, assustado, pensando que seria preso e deportado. Mas na
verdade, era meu Rum, que estava chegando do País Basco, para também ir à
Paris, só que de avião. Dividimos um pão e uma lata de atum, e fomos dormir.
Pela manhã, se preparando para seu voo, Rum me disse que tinha arrumado um
lugar para dormirmos nos arredores de Paris, na casa de uma colega de classe de
onde estudava em Burgos. Perfeito.
Partiu para seu voo, dei um
tempo fui à estação de trem. As dez da manhã já estava no trem a caminho da
fronteira entre Espanha e França. Cheguei a uma cidade que devia ter uns
quarenta moradores, desci na estação que não passava de um ponto de trem
coberto no meio do nada. Peguei o próximo que passou, apenas para passar pro
lado francês da fronteira. Outra cidade minúscula igual à anterior. Desci,
peguei mais dois trens até chegar em Paris, lá pelas cinco da tarde, me
encaminhei para o início da avenida Champs Elisées, onde me encontrei com o
Rum.
Essa viagem seria sua última
aventura, de Paris iria para Bélgica e depois voltaria para sua casa em Parras
de La Fuente, cidade interiorana no deserto do norte mexicano, para uma vida
padrão, e por isso, passamos os próximos quatro dias a toda madre.
Dizem, os espíritas, que a relação
dos vivos com os que morrem, pode prendê-los aqui, ou impedi-los de se
desenvolver no mundo espiritual, e assim como muitos dos beats da década de
quarenta, o mesmo pode ser que tenha ocorrido com Jim Morrison, poeta e cantor
da banda The Doors, que morreu em Paris e está enterrado no Cemitério do Père
Lachaise na capital francesa. Ali, em seu túmulo, como tantos outros,
diariamente, sem respeito aos outros, fomos beber juntos com meu ídolo durante
a madrugada. Pensa numa festa num lugar inapropriado... chegamos lá com umas
cervejas e já tinha uma pá de gente bebendo e se drogando junto do Jim
Morrison, que provavelmente não consegue se livrar desse mundo por conta desse
pessoal. Não sabia disso na época, só queria ter a oportunidade de compartilhar
uma bebedeira com ele, e lá ficamos até acabar nossa cerveja.
Os quatro dias passaram rápido,
mas foram bons e intensos, e apesar de tê-lo encontrado algumas vezes depois na
sua cidade natal, ali na estação de trem aonde ele iria para Bélgica, nos
despedimos aos prantos de quem nunca mais se veria.
Pensei que sorte eu tinha por
fazer amigos assim, mas...
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