No México os grupos de
Mariachis cantam canções tradicionais, principalmente as de borracheira, em
troca de dinheiro, à escolha do pagante. Quando eu morei lá, a canção que mais
escutei, e que me emocionava, e que virou uma tatuagem no meu corpo, se chamava
El Rey, composta por José Alfredo Jiménez, em 1971 e que foi, devido a sua
temática, rapidamente incorporada ao imaginário popular mexicano.
Eu me encantei na primeira vez
que ouvi, e em pouquíssimo tempo morando lá já estava enturmado em todo o
ritual em volta da música.
Quando chegamos à Parras de La
Fuente, encontramos um amigo natural da cidade que havia morado no nosso
apartamento quando estávamos todos (eu e mais cinco mexicanos) morando em
Burgos, cidade histórica de Castilla Y León, na Espanha. Em Burgos éramos
apenas um monte de jovens beberrões e estrangeiros numa terra desconhecida, mas
em Parras de La Fuente, o Rum, que havia passado quatro dias peregrinando pelas
ruas de Paris comigo, era como um rei, nascido e crescido numa cidade tão
pequena que ele conhecia literalmente a todos e vivia uma vida sem
preocupações.
Chegamos na casa de sua família
e antes mesmo de vê-lo já escutávamos sua voz “QUE PASSA TIO?
AAAAAAAIIIIIGGGHHH” com uma voz de baixo e aguardentosa característica sua,
saudando-nos com a emoção de irmãos que se reencontram depois da guerra. Abraços
e sacanagens se seguiram após o primeiro contato e fomos a rodar pela cidade,
na fome, Rum nos colocou na caçamba da picape dele e nos levou numa barraca de
rua para comermos um Pollo Rojo (na época ainda não era vegetariano).
Pollo Rojo, um galeto, marinado
por 24h num molho de ervas aromáticas e temperos colorantes naturais, uns cinco
tipos diferentes de pimentas (lembrem-se que estava no México, em que para não
consumir pimenta tem que pedir pra tirar, mesmo que peça comida que não seja picante,
o nível do que é picante para eles é outro, não à toa o lema culinário é “o que
pica pra entrar repica pra sair”), assado com pele numa churrasqueira vertical
até ficar sequinho por fora e suculento por dentro, acompanhado de jalapeños inteiros
assados. Que desjejum!
Depois de comer, fomos para o
deserto no entorno da cidade, Parras é o estereótipo da cidade mexicana de
filmes de Hollywood, onde você para, olha em volta e só vê buracos de cascavel
e aqueles rolos de feno rodando na areia. Sentamos e nos embebedamos como
loucos de uns “culhões de búfalo” e partimos pro rally parrense, os bebuns vão
na caçamba da picape, enquanto outro pilota o carro em alta velocidade pelas
dunas e ganha quem for o último a cair do carro. Obviamente, fui o primeiro a
cair, no primeiro tranco, da primeira duna. Mas me louvei como herói!
À noite, a família do Rum toda
se reunião na cantina da família, para beber e comer, comemorando minha visita
a eles. Veio até uma prima que era a pérola da família e estavam fazendo votos
pra gente se ajeitar e se casar, tudo em segredo sem que eu ou ela soubéssemos.
Lá pelas tantas, chegou um trio norteño, para tocar canciones de borrachera y
mariachi, e animar um pouco a celebração. Não demorou muito até a vovozinha
mexicana, matriarca da família com seus quase cem anos de idade, que não parou
um segundo sequer de beber cerveja, começasse a gritar e xingar o marido morto “te
ódio culeroooo” com uma gama de palavrões que nem mesmo eu nos círculos mais
baixos que frequentava conhecia.
El Rey, a canção que não pode
faltar. A família me colocou ao lado do trio, com Rum e meus outros dois
amigos, para cantar, para me mostrar para a tal prima, e todos já bem pedos, começamos
a cantar a todo pulmão, sem pudor das péssimas vozes e das línguas enroladas, “Yo
sé bien que estoy afuera / Pero el día que yo me muera / Sé que tendrás que
llorar (llorar y llorar) / Dirás que no me quisiste / Pero vas a estar muy
triste / Y así te vas a quedar / Con dinero y sin dinero / Yo hago siempre lo
que quiero / Y mi palabra es la ley / No tengo trono ni reina / Ni nadie que me
compreenda / Pero sigo siendo el rey / Una piedra en el caminho / Me enseñó que
mi destino / Era rodar y rodar (rodar y rodar) / También me dijo un arriero / Que
no hay que llegar primero / Pero hay que saber llegar / Con dinero y sin dinero
/ Yo hago siempre lo que quiero / Y mi palabra es la ley / No tengo trono ni
reina / Ni nadie que me compreenda / Pero sigo siendo el rey”.
Depois as musicas ficaram mais
animadas e começamos a dançar, a prima e eu, mas o dever nos chamava, e Rum nos
colocou os três e o trio norteño na picape e fomos, no meio da madrugada, tipo
umas duas, fazer uma serenata para uma paixão que ele tinha. O trio tocava, Rum
cantava com a voz de baixo, contratenor que tinha, e nós fazendo vocais de
apoio mais agudos, por umas cinco ou seis músicas, acordando toda a vizinhança,
inclusive o pai da moça que saiu da casa com uma espingarda, dando tiro pra
cima e nos fazendo correr como velocistas em olimpíadas. Fui ser achado pelo Rum
meia hora depois, perdido no meio da cidade, e fomos procurar o sanfoneiro do
trio. Ano passado nasceu a terceira filha deles.
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