Então íamos
nós, Cabo Folia!
A programação era curtir uma das noites do
Cabo Folia tranquilos, no que a gente considera tranquilo, apenas sem
preocupações, já que sabíamos desde sempre que uma noite no Cabo Folia seria
tudo menos tranquila, ainda mais comigo, Tom e Dadi, esse último o que
considerávamos o líder da gangue. Nós três juntos, boa coisa não poderia dar, e
não deu mesmo não, mas não pensávamos àquela altura do campeonato que a coisa
ia ser pior do que se poderia imaginar.
Não imaginamos porque éramos inocentes
demais, pois qualquer pessoa que nos conhecesse bem saberia de antemão que a
promessa desse Cabo Folia era um desastre em nome da irresponsabilidade.
Estávamos os três sem grana para uma viagem
longa e divertida, mas nossa falta de limite, sempre nos ajudou a nos virar e
achar soluções para nossos anseios juvenis, para nossa pré-disposição e excesso
de vontade de fazer merda. Papo vai papo vem, conseguimos convencer dois amigos
do Tom que não conhecíamos a ir para o Cabo Folia ficando na mesma casa que a
gente ficava em Arraial do Cabo, sem se preocupar com diária de hotel.
Convencemos os dois, mas nosso interesse era um só, Gustavo, que tinha o carro,
e nos levaria a todos. Após todo o convencimento, que dependeu de um nome de
mulher e uma garantia de uma trepada em algum dos quatro dias de viagem, nos
restava apenas esperar a quarta-feira à noite para pegarmos a estrada.
Aulas e bebedeiras de segunda a sexta, mais
bebedeiras que aulas, mas quem há de julgar o coração do jovem?, e o relógio
andando a passos lentos para chegar o grande dia. Compramos durante a semana o
dia que iríamos entrar no Cabo Folia, não foi caro, apenas trinta e cinco
reais, mas para nós era uma fortuna, dada a quantidade profissional de cerveja
que poderíamos comprar com essa grana no Botequim do Aníbal – que fazia uma
bela promoção de ampola de Brahma a um real nas terças feiras, e nos preparamos
para a saída da aula na quarta. Saímos sem parcimônia, correndo pelas escadas
do colégio com mochilas nas costas.
Do Colégio, fomos direto pro centro, entre
a Cinelandia e a Lapa, onde estaria o Gustavo nos esperando depois do trabalho
dele para irmos direto pra Arraial. Pegamos a carona, eu, Tom, Dadi, Gustavo e
o Baixinho, que até hoje não sei o nome verdadeiro. Fomos direto, tentando
chegar no final da Rio-Niterói antes das 19h, quando o transito começaria a
ficar mais tenso e acabaríamos pegando aquelas famosas oito horas de transito
num itinerário que não levaria três. Fomos voados!
Nada de diferente no meio da estrada, o que
me poderia me levar a estranhar nosso futuro, vez que todas as viagens dá
alguma merda em algum momento da estrada, mas minha ansiedade me ludibriava e
não pensei em como a falta de um contratempo poderia ser um presságio do que
deveríamos esperar. Não me atentei a nada. Dentro do carro, o radio tocava um
cd de musicas compiladas pelo próprio Gustavo que estava todo arranhado e
acabou que a única musica que tocava, milagrosamente, inteira, era Pequena Garota do Suel e Amaro. Nem sei quem são, mas só pelas memórias que essa musica
me traz já me têm como fã-zaço! Seguimos a viagem, duas paradas para
alimentação, com direito a um calote malandro por conta de Dadi e Tom e voltamos
pro asfalto para chegarmos logo e iniciarmos os trabalhos.
Chegamos umas quase dez da noite em Arraial
do Cabo, botamos o carro pra dentro da casa e saímos pra jantar, o mesmo de
sempre, x-tudo caprichado na maionese e molho barbecue e cerveja. Era quarta à
noite e nosso dia no Cabo Folia seria sexta. Comemos e fomos direto pra casa de
umas amigas do Tom para começar os trabalhos de convencimento de Ritinha (que
eu também não sei qual era seu nome verdadeiro, mas a chamávamos assim mesmo)
ficar com o Gustavo, senão era capaz do boyzinho meter o pé e deixar a gente
sem veículo.
Passamos a noite bebendo e conversando e
pela graças do bom Deus, ou pela malícia do tinhoso, Ritinha até que se
encantou pelo Gustavo ao longo da noite e dos copos de cerveja, que lá pelas
tantas eles começaram a ficar. Olhei de canto de olho pro Dadi, que me olhou
com cara de plenitude: a arapuca estava armada e o plano dando certo. Dali pra
frente, era deitar rolar.
Fomos pra casa pelas três da madrugada e
deixamos o Gustavo lá nas presas da Ritinha, que come qualquer um que ela sinta
vontade, para encontrar com ele no dia seguinte para ir pra Praia do Forno.
Pela manhã, eu e Dadi fomos comprar pão na padaria que ficava na estrada, para
tentar sair sem pagar – tínhamos mapeadas umas seis ou sete padarias que
poderíamos fazer isso nas estradas próximas. Eu sou uma negação dirigindo e o
Dadi até que dava pra levar o carro. Botei uma bermuda e uma camisa, Dadi só de
bermuda, pegamos a chave do carro do Gustavo e fomos nessa. Só de saída,
enquanto manobrava de ré o carro, Dadi arrastou a lateral do carro no portão da
casa, e por sorte apenas quebrou o retrovisor do carro, que rapidamente já
colocamos no lugar encaixado fingindo que não havia nada para que o próximo que
pegasse o carro saísse como culpado pelo dano. Quem nunca o fez?
No meio do caminho em direção à primeira
padaria que tentaríamos dar calote (seria a única do dia caso conseguíssemos),
buscando algum isqueiro pro Dadi acender um cigarro, encontrei embaixo do banco
um tipo de bolsa de trocados, desses que se usam para pagar flanelinhas,
carregada de notas baixas de dois e moedas de um real. Maloquei pelo menos uns
quarenta reais pra gente. E deixei quieto, a bolsa no lugar. E tacamo-lhe
‘pequena garota’ de Suel e Amaro no volume mais alto do rádio e fomos embora
calotear o café da manhã e quiçá o almoço.
Chegando lá, nossa tática de guerrilha era
sempre a mesma, cara de pau, orelha em pé, o motorista no carro ligado de ré
pra padaria e a porta do carona aberta. As vezes funciona, as vezes não. Já de
primeira quebramos a cara. Saí, deixando a porta aberta, andando devagar e entrando
no estabelecimento dando bom dia e sorrindo. Assim que entrei, o balconista,
coroa, gordo, e nada otário, já virou pra mim e “por que a porta do carro tá
aberta? Vocês não são desses garotos que ficam dando calote por aí não né?”,
disse me olhando desconfiado. Eu, com o cu na mão, perguntei se tinham geléia
de mocotó, disse que não éramos desses não, e sentei no balcão. Ele foi lá
atrás, olhei em volta e tinha muita gente até para eu tentar um furto, e
esperei ele voltando com a negativa do meu produto. Agradeci e me mandei, com
os passos calmos.
“Dadi, o cara sacou logo a parada.”, falei
sem muito animo, no que ele respondeu me perguntando o que fazer. Mandei seguir
pra segunda e fui matutando a porra do plano b. Arriscado, mas tive que assumir
meu exercício matinal, e repedindo a mesma tática, só que com o carro parado
mais longe e fora da vista do balcão, me vejo saindo correndo que nem um louco
com uma caixa de leite (essa foi paga), duas latas de sardinha, pão francês
quentinho, queijo amarelo, uma manteiga de marca duvidosa, um pote de maionese
que não era Hellmanns e duas latas de Itaipava geladas. Nunca passaria numa
aula de educação física direto no colégio, mas dessa vez o professor teria
orgulho de mim, que eu deixei neguinho comendo poeira e me enfiei no carro como
se eu fosse o Bruce Lee naquele filme que ele luta contra uns ninjas.
Saímos varados sem nem olhar pra trás. No
meio da estrada paramos de frente pras salinas de arraial, e ficamos sentados
no acostamento de frente pras “piscinas”, aquele campo vasto de tanques cheios
de água de mar e da lagoa de Maçambaba secando ao sol pra dar sal, rindo, cada
um com sua lata de Itaipava. Nossas conversas eram sempre regadas a Roberto
Carlos, falando sobre ele e cantando musicas dele, elucubrações sobre a vida
que nunca terminavam porque não tínhamos saco para isso, garotas do colégio, do
colégio perto do colégio, da faculdade perto do colégio, das conquistas e
derrotas, mas nesse dia não conversamos, apenas olhávamos pras salinas e nos
olhávamos e ríamos e brindávamos a nada aparente e bebíamos. Não durou muito,
pegamos o carro e voltamos, para pegar o Gustavo, que nos esperava acabado e de
sorriso de orelha a orelha, com cara de bobo, e fomos tomar café da manhã.
O café foi tranquilo, pão com queijo e
manteiga e copos de leite puro. Nada demais. Não tomei o leite por causa da
cerveja que já havia tomado. Fizemos o almoço logo, um panelão em que
misturamos o atum que eu maloquei junto com umas latas de sardinha velhas que
estavam na casa desde a outra viagem e a maionese. Fomos pra praia, e o almoço
ficou na geladeira intocado. A praia do Forno sempre foi e sempre vai ser meu
paraíso na terra, e toda vez que estou lá, não estou em nenhum outro lugar.
Sentamos pelo meio da extensão da praia,
onde há não mais que alguns meses estive com Tom e mais alguns, curtindo uma
noite chuvosa todo mundo nu, e tive boas recordações daquele mesmo lugar.
Fiquei ali sentado, pensando em como aquele lugar é mágico, como as águas são
fodas, lindas e tudo mais de muito melhor que em qualquer lugar do mundo,
enquanto os outros mergulhavam e jogavam altinho eu ficava só sentado olhando,
em meus devaneios praieiros, com todos os problemas da vida, sejam grandes ou
pequenos, longe de mim. Ali eu me sentia parte da Criação de uma maneira tão
vívida e tão forte que se qualquer pessoa pudesse sentir o que eu sinto quando
estou lá, não precisaria de um padre, pastou ou o que fosse pra lhe dizer como
chegar a Deus. Ali, Ele estava do meu lado, sentado, olhando junto comigo.
O dia passou rápido, como qualquer dia,
hora, minuto, semana, ou mês quando a gente está se divertindo. E foi só o Sol
começar a se por, picamos a mula de volta pra tomar umas na praça perto de casa
junto com a galera. Chegamos em casa, tomamos banho e fomos todos pra essa
praça que a galera da cidade fica indo pra beber em vários grupos, comer uns
‘podrão’ e ficar de bobeira, paquerando se pegando e trocando ideia. Começamos
a beber com um grupo de minhocas que já conhecíamos de outras vezes, e essa
galera tinha uma condição maneira, então não nos preocupamos com as bebidas por
aquela noite, e elas não paravam de vir.
Depois de umas duas ou três horas bebendo,
as coisas começaram a ficar tensas por causa de uma ruivinha gatinha que tava
olhando pro Dadi direto, mas que tinha namorado. Ela tava afim do Dadi, e já
estava rolando um burburinho por causa disso entre as pessoas porque o namorado
dela tava chegando e tinha uns palhaços que com certeza iriam falar pra ele. O
cara era um desses trogloditas imbecis, que se achava o maioral, mas que levava
lesa da mulher o tempo todo e ao invés de largar ou resolver o problema dela,
queria resolver as coisas com os outros, como uma maneira de se sentir o macho
alfa intimidador. Dadi coitado que nem esboçou nem vontade nem nada sequer para
sair com a ruivinha já tava cotado para a morte, e bêbado o suficiente pra não
se importar ou não conseguir se importar. Acabou falando que não precisávamos
nos preocupar e que continuássemos bebendo tranquilos.
Não passei nada para os outros, mas no meio
de uma mijada, Dadi me cantou de meter a porrada no babacão caso ele tentasse
algo com ele visto que eu era o único com porte e tendência suicida suficiente
para que nos mantivéssemos bebendo o máximo possível de graça até que a
confusão começasse. Concordei, ora, não ia deixar de beber de graça por causa
de um pangaré com problemas com o tamanho do próprio pinto. O cara chegou, uns
idiotas meteram a boca no trombone, o cara não quis nem saber se havia ou não
acontecido algo de verdade, empurrou a garota no chão e foi tirar satisfação
com o Dadi, que tava de boa encostado num poste fumando o cigarro. Pensei
‘pequena garota’ que faz os homens se comportarem como animais.
Esse troglodita era o dobro do meu tamanho,
tudo inchaço de bomba, agua pura, mas intimidava os mais receosos, os frangotes
e os prudentes, mas ocorre que no meu círculo social, não conheço ninguém
assim. O troglodita já chegou gritando com o Dadi, perguntando que que ele tava
querendo com a mulher dele, dando uns empurrões tipo tirando satisfação,
aqueles empurrões debochados, nesse mesmo momento virei pro Tom e disse: “Cara,
faz o seguinte, eu vou quebrar essa garrafa na cabeça dele e tu dá um soco
naquele amiguinho dele que ta chegando mais perto ali, beleza? É eu quebrar e
tu bater, a gente pega o Dadi, corre em direção ao meio do grupo mas sem
intenção de parar, e vamo direto pro carro.”, e virei pro Gustavo e pro
Baixinho e disse que voltassem pro carro pelo outro lado da praça e fossem com
ele mais pra perto da Praia dos Anjos para que a gente chegasse até lá, coisa
de uns cinco minutos correndo em linha reta, por uma ou duas ruas escuras.
Quando o amigo do troglodita chegou mais
perto, que ele se encheu de macheza pra aparecer ainda mais pros amigos, e
levantou a mão pra bater no Dadi, quebrei a garrafa de Antártica meio cheia na
cabeça dele, no que deu tempo de levar um pescotapa do amigo dele, sair catando
cavaco, cair no chão e ver a mão do Tom
varando a cara dele de lado que o cara caiu que nem uma tora no meio do
desmatamento, no que saímos correndo pro meio da galera eu, Tom e Dadi na maior
atropelagem com os braços fechados protegendo a cabeça igual os sparrings de
boxe, com as duas mãos fechadas no cocuruto e os antebraços colados nas
laterais dos rostos para não receber nenhum golpe. Passamos sem olhar pra tras
derrubando todo mundo e fomos em direção à Praia dos Anjos.
Entramos no carro sem demora, e passamos
pela extremidade da praça mais vazia, no que tava rolando a maior pancadaria
generalizada entre todos os grupos que estavam lá, com nossos dois amigos
marrentos ainda no chão, e a polícia tentando acalmar a situação. Nem ficamos
pra ver, praquela noite, já estávamos no grau, metemos o pé pra Cabo Frio comer
um podrão naquela pracinha que tem uns quiosques, e de lá fomos pra casa
dormir. A quinta-feira acabava da pior maneira possível, fugidos e cansados,
sem nem ter aproveitado o efeito do álcool direito.
Pra casa, era o melhor a fazer.
Quando o dia amanheceu e o sol começou a
nascer eu já estava acordado, do lado de fora da casa deitado na grama olhando
pro céu. O céu noturno estava limpo, sem uma nuvem e carregado de estrelas, o
que me prenunciava um dia de sol forte e calor, ótimo pra mais um dia de praia
antes de irmos pro Cabo Folia a noite. Não quis me precipitar, porque, afinal,
por mais vontade e menos responsabilidade que se tenha, o corpo cobra, e eu não
queria chegar a noite já fudido, então, não quis me precipitar e resolvi passar
o dia tranquilo, sem bebida, sem fortes emoções e sem muito esforço. Fomos
pegar uma praia na Prainha em Arraial mesmo, fiquei debaixo de sombra, dava
mergulhos longos na água gelada e bebi agua de coco e comi um peixe saboroso no
almoço. O pessoal, acabou seguindo um pouco essa rotina também, até porque, já
tava geral meio mais pra lá do que pra cá dos últimos dias, e a noite prometia.
Na volta da praia, passamos no mercado e
compramos a janta, nada demais, não costumávamos comer nada muito rebuscado,
compramos umas salsichas e pão francês, um molho de tomate, outra maionese,
mostarda e ketchup, queijo ralado, milho enlatado e batata palha... pro jantar,
que ainda levamos umas garrafas de Sangue de Boi, um vinho baratão, que não
questionarei a qualidade por respeito aos produtores, mas um vinho baratão que
é bebido porque rende muito pelo preço dele. Em casa chegamos, preparamos o
jantar e comemos.
Fomos nos arrumar logo depois do jantar,
umas sete da noite e oito da noite já estava geral pronto. Engraçado como eu
nunca me arrumei muito, fui até questionado pelo Gustavo, que tava numa beca
que eu nem entendi direito. Era um Cabo Folia, queria era exorcizar e não
chegar lá preocupado com gel de cabelo. Fui de bermuda, all star preto velho e
uma camiseta de alça porque tava calor pra caralho em contraste com calça
branca, camisa polo, sapatenis e perfume dele. O resto tava no meio do caminho.
Saímos de casa, fomos pra casa onde a
Ritinha e umas amigas estavam e já no meio do caminho, dei umas goladas de
Sangue de Boi, todos demos, e estávamos pilhadaços para a noitada que começava.
Conversamos rapidamente com as meninas, e marcamos de encontra-las já dentro do
evento la pelas meia-noite. Voltamos pra casa, nos munimos com o que tínhamos
de dinheiro, ingressos nos bolsos (eu dei uma cagada para me garantir) e
partimos. Entramos os cinco no carro do Gustavo, ‘pequena garota’ no volume
máximo, pé na estrada, Arraial Cabo Frio em tempo de fórmula um com janelas
abertonas pro vento entrar e sem nenhum sentimento de culpa do que deveria
ocorrer dali pra frente.
Quando chegamos em Cabo Frio, estacionamos
relativamente perto do evento, num gramado enorme que estava servindo de
estacionamento mesmo, onde as pessoas já estavam doidonas perdendo a linha e o
evento. Paramos o carro e fomos em direção à Praia Grande, onde a estrutura da
festa tava montada, gigante, cheio pra burro, aquela muvucada típica desse tipo
de evento. Mulherada, playboyzada, mulambada, um monte de galera.
Na praia a galera andava com bebidas nas
mãos, carros parados em cima das calçadas com os porta malas abertos com
aquelas caixas de som tocando desde funks antigos (aqueles de noventa e cinco
que foram compilado nos cds do Rap Brasil um e dois, que tinha aquele lobo
malandro na capa) a uns funks novos e uns axés e umas musicas merdas de radio e
outras musicas ainda mais merdas só que divertidas pra galera meninada dançar
esquentando antes de entrar para ver os shows.
Falei que já estava cansado de ficar
andando sem ermo só pra ver como tava a situação, e que queria começar a beber
logo que não ia mudar nada ficar ali só analisando e que seria bom ou entrar,
ou começar a interagir com a bebida e com as pessoas. Não à toa falavam que eu
não tinha limites, tive dificuldades durante toda minha vida de pensar no dia
de amanhã. Então numa unanimidade, todos concordaram comigo, e fomos comprar
umas bebidas para nossa noite que prometia mais do que imaginávamos e posso
dizer que haveria de ser, hoje olhando para trás, uma das, quem sabe a mais,
mais frenéticas da minha vida.
Paramos num quiosque, e começamos a contar
dinheiro, cada um o seu, para fazer a programação da melhor maneira e otimizar
a bebedeira. Parti logo pro whisky, peguei meus dez reais e dei logo em três
doses de Teachers, me sobrando um real que dava pra tomar uma lata de cerveja
depois ou duas garrafas de vinho Dom Bosco de meio litro, mesmo top do Sangue
de Boi, mas estava sendo vendido por ambulantes na rua.
Tomei
os três whiskies cada um numa talagada enquanto os outros foram comprando suas
bebidas uns cerveja outros dom bosco no final das contas todo mundo se
preparando para ficar o mais doidões possível no menor tempo para tentar
aproveitar desde o quanto antes a onda e saímos por aí andando e eu já comprei
logo meio litro de dom bosco para ficar com alguma bebida na mão e fui bebendo
a gente em direção à porta do evento no que eu encontrei minha prima filha da
irmão do meu pai que também tava tão doida quanto eu e marcamos muito
rapidamente de nos encontrar la na porta antes de entrar dali a uma ou duas
horas porque ela ainda tava procurando ingresso pra uma amiga dela num preço
razoável justo e a deixei lá para seguir meu caminho de bebedeira até que o Tom
resolveu que tinha que vomitar porque já não tava muito bem e foi todo mundo
atrás dele em direção à praia e fomos pra areia pra ele poder vomitar atrás de
um dos quiosque da praia que tavam fehados e começou a vomitar e o Gustavo
falou que ia lá dar um mijão e parou do lado dele e de repente o Dadi filho da
puta saiu do meu lado em direção aos nossos amigos e de repente o vejo se
ajeitar de cócoras com a calça arriado mandando um barro naquela fila bizarra
de vomito mijo e merda que nunca pensei que veria numa noite como essa e lá ele
tava cagando e de repento só o vejo olhando para os lados com cara de
curiosidade como se tivesse desentendendo o que se passava e ficou lá durante
um tempo agachado com a bermuda no joelho e esticou o braço pra desenterrar
umas folhas de jornal de debaixo da areia para poder limpar a bunda e assim o
fez e eu e o Baixinho que tava do meu lado nos entreolhamos com cara de nojo e
eu disse que saía cagado mas não fazia aquilo e o Gustavo já tava voltando pro
nosso lado e desistiu pra compra uma cerveja no calçadão e ficou lá esperando
enquanto o Tom continuava tentando vomitar mais para ficar bem pra continuar
bebendo e o Dadi vei em minha direção e ficou se cutucando e ajeitando sem
parar do meu lado até virar e dizer “cara preciso me limpar direito num vai dar
pra comer ninguém do jeito que eu to vamo comigo até a água pr’eu poder me
limpar no mar e aí eu fui com ele que tirou a roupa toda e entrou na agua pra
terminar de cagar e e se limpar e enquanto ele estava lá abaixadinho as ondas
baixas vinham e iam e cada vez que vinha ele se levantava pra não ser
encharcado ou desequilibrado e quando ela ia ele se abaixava de novo e terminou
de cagar e fico repetindo essa porra enquanto ficava jogando água na bunda com
uma das mãos e com a outra dava aquela passada de tirar o excesso e depois
ainda abaixou meio tronco com a bunda apontada pra mim aquela porra cabeluda
escrota enquanto ele lavava as mãos e ainda saiu secando as mãos no cabelo pra
pegar a bermuda, cueca e camisa do meu ombro e vestir e calçar os tênis dele
pra se arrumar e agradecer que pelo menos o Tom parou pra vomitar que deu tempo
dele se livrar da carga que tinha e voltamos e o Tom já estava cem por cento de
novo em pé e pronto pra botar pra quebrar mas o Baixinho e o Gustavo que
queriam pegar mulher mais do que se divertir já haviam entrado e deixado mais
uma grana com a gente pra bebermos mais e a chave do carro também caso
precisássemos, e precisaríamos, e então fomos pra rua tentar beber mais e aí no
meio caminho bebendo meu Dom Bosco junto com Tom e Dadi me passa um cara muito
doido com uma garrafa d’água daquelas de cinco ou seis litros cheia de cachaça
dentro com aquela mangueira que faz a bebida descer na pressão apostando com
todo mundo que ele via no caminho pra ver quem conseguia ficar mais tempo bebendo
direto e o Tom me pegou pela mão e fomos direto lá beber a cachaça do cara pra
ganhar a aposta porque ele sabia que eu sempre curti cachaça e ele tinha uma
manhã da parada descer a garganta sem dar goles o que o fazia não sentir a
bebida na boca até que parasse de beber e eu perdi a aposta mas ele ganhou e
saímos de lá com algumas latas de Antártica gelada e muito mais loucos do que
chegamos nessa eu já sem saber o que tava fazendo muito bem e tentando imaginar
como fazer pra parar mas sem o menor controle que do jeito que as coisas tavam
indo a coisa toda não ia prestar e então como que do nada eu tentando me
equilibrar me surge um desses playboyzinhos sem camisa pra mostrar que ta
fazendo efeito a malhação com uma garrafa pet de coca-cola até a metade de um
líquido amarelo com gás e uns pózinhos lá nadando e oferecendo insistentemente
“toma toma” e o Tom que não via coisa palmo a sua frente pegou a garrafa e
perguntou o que era para a gente saber da boca do maluco que era O2 aquele
energético com cocaína diluída “ódoiscomcocaina ódoiscomcocaina” e Tom sem dar
a atenção devido meteu guela abaixo e me passou a garrafa que bebi um pouco mas
a parada era ruim demais e parei na metade tendo tomado quiçá um ole inteiro e
repassado a garrafa de volta pro muleki que nem viu o que aconteceu já tava
oferecendo para outra pessoa e se mandou sem que a gente visse nada e o funk
bombando alto e etourando os tímpanos num chevete vermelho sem capota no que eu
virei pra falar com Tom que já estava perdido e não ainda olhei por cima da
multidão mas não o vi e logo virei pro Dadi que tava virando uma garrafa de Dom
Bosco e perguntei o que a gente fazia e ele me disse para irmos na porta do
evento e ver se achamos ele lá senão a gente vendia os ingressos que a gente
também tava com o do Tom e usava o dinheiro pra beber mais e quem sabe o que
mais e a gente chegou na porta e conseguimos inclusive vender um dos ingressos
para essa amiga da minha prima maior gostosa que ficou toda toda felizinha
porque ia poder entrar lá e disse que ia recompensar de alguma maneira e eu já
pensei besteira mas logo me desvirtuei para tentar vender os outros dois
ingressos no que um cambista desses que ficam só falando no pé do ouvido “se
tiver ingresso eu compro se tiver ingresso eu compro” numa altura que não sei
quem consegue ouvir aí que depois de uma meia hora de negociação conseguimos
vender os ingressos p’esse cara assim por dez reais a menos do que pagamos
cinco de diferença em cada um nos rendendo exatamente sessenta reais além dos
trinta e cinco que já havíamos pego com a amiga da minha prima e estávamos com
quase cem conto pra gastar a vontade e assim foi durante toda a extensão da
noite e começamos a andar no meio da galera quando sentimos aqueles empurrões
derrubando as pessoas e uns gritos de dor altos pra caralho e de repente tava a
gente sendo empurrado e passa um desses caras com aquela roupa de apoio com
seus quase dois metros de altura um negão forte pra caralho bonitão carregando
uma loura com o pé todo ensanguentado assim escorrendo e ela gritando pacaceta
e eu lerdo olhando aquela porra toda acontecendo sem entender nada ainda
tentando me manter em pé no que o Dadi sai me puxando atrás da procissão de
curiosos e zuadores até quando o cara soltou a menina e começou a conversar com
ela e ela gritando respondendo as perguntas sem paciência e sem noção do que
tava acontecendo “eu tava com meu namorado e alguém jogou uma garrafa de
champagne na rua e quebrou perto da gente e quando meu namorado foi ver tava
rolando uma porradaria uma briga sei lá e as pessoas abriram uma roda
empurrando quem tava em volta e quando me empurraram pisei nessa caco que tá aí
ó ó dentro do meu pé cara” “não cara não sei onde ele tá só sei que na hora
que” “ ele deve ta me procurando” “me ajuda” e nisso o tal cara do apoio
perguntou se ela tava de carro e ela assentiu com a cabeça e pegou a chave e
deu para ele no que ele perguntou qual era o carro “palio preto placa tal perto
do correio” e perguntou quem ali perto poderia dirigir para ajudar e o Dadi
levantou o braço e pegou a chave e me olhou e eu perguntei se ele iria voltar
com aquele carro ali e ele me olhou com aquele olhar de “tu ta viajando?” e eu
disse que ia com ele e fomos andando saltitantes que iríamos pegar o carro dela
pra zuar por aí e eu pensando em todas as merdas que a gente ia fazer com
aquele carro até em vender pra beber mais e tava apressando o passo quando o
namorado chegou correndo atrás da gente pra pegar a chave e eu ainda disse pra
não entregar mas o Dadi começa as merdas mas as vezes não sabe como fazer pra
terminar no que ele sempre precisava de mim pra dar prosseguimento pras
incandescências dele e devolveu a chave e a gente foi mijar numa van ali perto
e depois fomos andando e tivemos a solução pra beber ainda mais que fomos
chegando nas meninas um de cada vez com aquele papo frouxo só para pegar a
garrafa de vinho que elas bebiam e chegamos um e pedia o gole pra menina e
passava a garrafa pro outro que sumia com o vinho e assim a gente fez por umas
quarenta e poucas garotas ateh quase de manhã quando fomos dar aquela encostada
pra descansar e no meio do caminho passamos pelo carro do Gustavo e estava lá o
Tom dormindo no banco de trás e a gente acordou ele que acordou perguntando
onde tava e nós dissemos “Cabo Folia” e aí metemos o pé pra beber mais porque
vendo nosso amigo ali nossas energias foram renovadas e aí andando na xepa do
evento resolvemos ir roubar uns bêbados apagados na praia e pegamos a primeira
descida pra areia tinha um grupo de meninas ali uma mais feia que a outra lembro
até hoje Betinha e Pati esperando uma outra menina e essa tal de Pati acendeu o
Tom que ficou lá chegando nela e tentando beijar e ela se esquivando e ele
correndo atrás dela aquela cena horrorosa de se ver e eu e o Dadi rindo pra
caralho e o Tom chega dizendo que a mina so fica com ele se alguém pegasse a
amiga dela e eu olhei pro Dadi e falei pra ele que não vou pegar mulher feia
pro outro pegar mulher feia e aí eu ainda falei que nem adiantava mne olhar que
a vez era dele mesmo por conta da mina de Guapimirim da outra viagem e ele fez
um muxoxo e foi chegando perto da Betinha que era maior que ele em todos os
sentidos e então ele ainda tentou apelar pra minha solidariedade e me olhou
como quem pede pra trocar e aí eu virei a cara e quando eu virei de novo tava
ele beijando ela com cara de nojo e ela sorrindo de olhos fechados aí logo que
ocorreu a Pati pegou o Tom e aí veio chegando a terceira amiga toda toda com
três copos de caipirinha na mão e eu peguei uma pra mim e falei que era a coisa
mais nojenta que eu já tinha visto aquela cena e começamos a rir juntos e logo
depois com o sol perto de nascer o horizonte se avermelhando fomos para o carro
em passos lentos e acabados.
Nessa
hora, eu já estava passando mal. Ficamos encostados no carro até que o Gustavo
e o Baixinho chegassem coisa de pouco mais de meia hora depois que já estávamos
lá. Com todos dentro do carro deitamos os cabelos até em casa em Arraial para
descansarmos. Eu não conseguia me manter em pé muito bem e assim que cheguei
fui comer alguma coisa.
A
geladeira a esse ponto estava bem vazia e dentro de um pote grande estava a
sardinha com atum e maionese da quinta descansando tranquilamente com uma cor
duvidosa. Pensei que aquela tonalidade era fruto do efeito do álcool como já
havia ocorrido anteriormente em outros momentos que não precisam ser explanados
agora e mandei bala com quatro fatias de pão de forma, duas delas as pontas.
Comi
e fui dormir.
Menos
de duas horas depois levantei passando mal, pálido e sem força. Me arrastei
pelas paredes até o banheiro e dá-lhe diarreia e vomito. Diarreia e vômito.
Vômito e diarreia. Fui pra cama. Menos de cinco minutos estava na privada de
novo me esvaindo em merda, literalmente mijando pelo rabo, ardido e tonto.
Tonto pra caralho. Pálido. Com frio. Acho que aquela sardinha me sacaneou.
Lá
pelas onze da manhã o pessoal foi acordando e Gustavo começou a se preparar
para voltar pro Rio, mesmo ainda tendo o domingo. Falei com Tom e Dadi que iria
com ele porque eu tava extremamente mal e não tava afim de ficar ali só me
fudendo de cagar. Fui cagar pelo menos umas quatro ou cinco vezes antes de
realmente pegarmos o caminho de volta pro Rio.
A
viagem foi a mais demorada do mundo, com duas paradas para dar aquela barrigada
em postos de gasolina, coisa que não quero nem me lembrar quanto mais falar
sobre, e entre uma parada e outra eu dormia no banco de trás para que não
sentisse os problemas do meu corpo me judiando pelos meus excessos juvenis.
Nesse momento nem ‘pequena garota’ me alegrava.
Chegamos
ao Rio, e Gustavo me deixou na garagem do prédio dele em Laranjeiras para ir
pra casa ali em Botafogo. Descendo o elevador para a portaria aquele embrulho
voltando pro estomago, tive que dar um papo no porteiro pra me deixar usar
algum banheiro ali na portaria ou então no play do prédio, só sei que onde
fosse tinha que ser porque eu não iria aguentar chegar em casa sem me borrar.
Pernas
cruzadas. Mão apertando a cintura da calça puxando pra cima. O porteiro não
voltava com a porra da chave do banheiro de serviço do prédio, eu já não
aguentava mais, cada vez mais pálido, suando frio, tonto e fraco. Quando ele
finalmente chegou já estava com o cu ardido de segurar e aquela dor abdominal
grosseira me agredindo que nem deixei ele esticar o braço para me entregar,
agarrei a chave e fui correndo. O banheiro era minúsculo com aquela privada
amarelada encardida com aquele rastro vermelho-marrom escorrendo no entorno
dela até a agua do fundo que também não tinha uma cor lá das mais agradáveis
com a tábua toda estraçalhada de mal cuidada daquelas que beliscam quando você
senta e força as rachaduras e cheio de tralha tipo uns baldes de limpeza que de
sujos não limpariam nada e umas vassouras velhas já com as piaçavas esgarçadas
caindo a cada jato que eu dava que me doíam tanto que eu chutava a porra toda.
Foi foda.
Término
o suplício da cagada, me encaminhei a casa. Morava em Botafogo então não levei
dez minutos para já estar na porta de casa entrando correndo e dando boa tarde
pra minha velha sem olhar pra ela com a voz fraca e deitando na cama para só
acordar lá pelas oito da noite fudido e sendo levado para a Policlínica de
Botafogo para uma internação de dois dias de soro e remédios para evitar que eu
entrasse em estado crítico de desidratação e coma alcóolico no que eu disse pra
minha mãe que bebi pouco mas comi uma sardinha estragada que ela muito
contrariada fingiu acreditar dada a fragilidade do momento.