Parece que já o conhecia há anos antes mesmo de saber seu nome, e me parecia tão real hoje, que bebia comigo, farreava comigo, cantava comigo, brigava comigo, corria comigo contra o tempo da cidade que já se preparava para fechar. Não por ter sido que ele era de verdade, mas muito mais pelo que ele era para mim, quase como um sonho, quase como se eu tivesse me instalado num sonho e de lá mesmo realizasse tudo que sempre me peguei, dormindo ou acordado, sonhando em realizar na vida real. Ali naquele momento, conversando com ele e compartilhando uma “palfísico”, satisfeito estava, e fui atravessado pela lembrança das quantas vezes me peguei pensando em Dean Moriarty! Dean Moriarty! Dean Moriarty.

Não por ter sido de fato Neal Cassady, e ter morrido anos antes d’eu nascer, mas ali estava ele, na sua transfiguração para quem ele era realmente para mim, Dean Moriarty, insolitamente tomando uma cerveja local, como se de lá nunca tivesse saído, e de fato não saiu, seu corpo estava enterrado ali, em San Miguel de Allende, desde a desencarnação, e não sei quantos de “mim” passaram por ali impedindo-o de levar o sono eterno adiante e, como Jim Morrison em Paris, fadado a viver a vida que levou sua vida over and over and over again, sem parar.

Para mim era tudo novo e uma transcedencia da minha própria história, de tudo que vim vivendo com Moriarty e Paradise na cabeça, tanto quanto Alex Supertramp, tanto quanto Bandini, e estar à frente dele, de carne e osso, de sonho e realização, de insanidade ou ‘a little high”, de igual para igual acabando com a cerveja de um bar enquanto um grupo de Mariachis incansáveis em troca de unos pesos não paravam de cantar El Rey seguidamente, intercalados com outras canciones de borrachera que outros ainda pediam e pagavam mais que nós, antes que tudo fechasse para a noite seguir como as noites são no meio do deserto, promessas de um mundo calmo e silencioso que só nós errantes e pedotes ainda insistiam em tardar acontecer.

Em San Miguel de Allende, esquece o jazz, the beat, the beats, the dharma, the bums, esquece tudo, ali era la peda, los tacos, culeras, cantinas y mariachis, pues nada más... E até apagarem as ultimas luzes e trancarem a ultima porta, nós não paramos um segundo. Depois, pegamos umas extras para sair andando pelo breu, tropeçando em nossas próprias pernas e nos escorando um no outro.

No caminho dos trilhos de trem, bem no meio do caminho, indo para qualquer lugar, para nenhum lugar, Moriarty parado, em pé, como se nada tivesse consumido aquela noite me olha, vago e triste, não iluminado, “cara, po, se liga, daqui não posso passar”, olhei-o, olhei em volta, muito pouco vendo na pouca luz da lua, “foi aqui?”, ele afirmou com a cabeça e os olhos marejados. Nos olhamos em silencio por algum tempo, “sinto falta dele”, disse, “não tem minuto que passe, que eu não pense em Sal Paradise! Sal Paradise! Sal Paradise!”. Olhei em volta e toda uma vida passou diante de mim, tantas páginas onde seus nomes aparecem repetidamente, quando voltei a olhá-lo já não estava mais lá, como apareceu se foi, e eu pude voltar para onde dormiam meus amigos – mexicanos esses, para continuar a viagem até Parras de La Fuente, nosso destino quase certo.

 

San Miguel de Allende é a cidade mexicana onde Neal Cassady morreu e está enterrado. Visitei a cidade por duas vezes e por duas vezes me senti tocado pela minha história de vida, como um beat tardio, viajando o mundo em busca de algo que não se encontra de forma alguma fora de nós mesmos.

San Miguel tem um centro da cidade colonial, que mantem a arquitetura mistura de europeia e nativa, com um charme de cidade antiga que apesar da modernização, ainda tem Mariachis nas praças tocando e cantando canções tradicionais, sejam de borracheiras para os beberrões, sejam para namorados e namoradas cantarem canções apaixonadas dedicadas um ou outro.

Mariachis como os do Tenampa não existem.

Chegar desavisado ao Tenampa, com seus mais de cem anos de tradição, no centro do México, na praça Garibaldi, é correr o risco de querer virar mexicano no fim da primeira canção que os mariachis cantam, vestidos à caráter, enquanto se toma unas banderitas, drink especial com três copos de dose, uma de limão, uma de tequila blanca, e outra de suco de tomate, formando as cores da bandeira mexicana, que depois da terceira, já não hão pernas que sustentem o corpo. E virar mexicano não é fácil, demanda força pra comer pimenta, para beber cerveja e tequila a medida que chegam na mesa, comer com tortilha no lugar dos talheres e chorar alto por todos os amores do passado na frente de quem quer que seja, dar gritos e cantar alto até que a voz se acabe, abraçado ao primeiro fodido, tão fodido quanto você, ao lado, que também está chorando por um tanto de amores que, não fosse sua companhia também mexicana, poderia ficar constrangida, mas essa também está chorando pelos seus próprios amores que deram errado, e independente das razões do fim, os fizeram muito mal a ponto de sofrer de forma que só canções de borrachera para exorcizar esse mal.


 

 It's all over now, baby blue!

 

Palfísico” é o nome popular e de zoeira de uma cerveja mexicana que se chama Pacífico. Uma das melhores cervejas de botequim que tem no México, encorpada e saborosa, de coloração amarelo claro e amargor controlado. Tomava muito quando morava lá.

Os mexicanos gostam de dar apelidos para as cervejas, como essa se chama Pacífico, e é cerveja de bebum sem dinheiro, eles chamam de “palfísico”, ou seja, “para o físico”, já que é cerveja de tomar quantidades grandes em churrascos e festas. Além dessa, a Modelo Especial, que tem uma garrafa rechonchuda, é chamada de “cojones de búfalo” ou só “cojones” (culhões).

Dentre as cervejas que tomei no país, a Tecate Light, Victoria, Corona e Coronita, Dos Equis (XX), as duas já mencionadas e uma chamada Índio são as que mais gostei, mas essa ultima em especial me marcou muito porque era a cerveja vendida na Lucha Libre da Arena Olímpico de Gomez Palacio, no estado norteño de Durango. A lucha libre diz mais a respeito da cultura mexicana do que qualquer coisa que se possa imaginar.

Um estádio, ou arena, decadente, num bairro decadente de uma cidade decadente do interior decadente do México. Uma luta armada quase circense para entretenimento e extravaso, de gente de todo tipo e idade, por uma merreca, num evento que eles levam a sério. Os lutadores, com suas mascaras e fantasias, me lembro de dois especificamente, Dulce Paola e Sexy Pisces, que quebram o estereotipo do lutador machão fortão, com golpes especiais que vão de beijo na boca do adversário à reboladas atordoadoras, fazem a parte da ação que todos vão ver, mas os destaques de verdade são coisas subjetivas: o arbitro da lucha, Viruta, e a interação da plateia, e o atendente, Barra Marín.

Viruta, o árbitro, apanha mais que os lutadores... dos lutadores, dos espectadores, da própria mãe que aparece nas luchas de vez em quando, é xingado, vira alvo de copos de cervejas, atirados por idosas matriarcas de família que ainda estão com as roupas de missa e terços no pescoço, tomando cerveja e xingando tudo quanto é palavrão que não escute Nossa Senhora de Guadalupe, ou aprendida com ela, que algum dia deve ter xingado algum arbitro de lucha libre lá atrás nos primórdios do cristianismo mexicano no sopé do Tepeyac, que depois de chingar grita lá pra baixo “oye Barra (Marín) dos Índio por favor”.

 

Eu já havia passado por mais de quinze cidades na Europa, muitas das quais não tinha lugar para dormir, quando cheguei ao aeroporto de Girona, uma cidade próxima à Barcelona, na Catalunha, em que o aeroporto é utilizado para voos domésticos, como um Santos Dummont no Rio de Janeiro, desafogando o aeroporto internacional. Estava lá para pegar um trem para Paris na estação próxima, no dia seguinte, e pretendia, para evitar custo de estadia, dormir por ali mesmo.

Cheguei em torno das onze da noite, me encontrei um canto e dormi. No meio da madrugada fui acordado a chutes e xingamentos, assustado, pensando que seria preso e deportado. Mas na verdade, era meu Rum, que estava chegando do País Basco, para também ir à Paris, só que de avião. Dividimos um pão e uma lata de atum, e fomos dormir. Pela manhã, se preparando para seu voo, Rum me disse que tinha arrumado um lugar para dormirmos nos arredores de Paris, na casa de uma colega de classe de onde estudava em Burgos. Perfeito.

Partiu para seu voo, dei um tempo fui à estação de trem. As dez da manhã já estava no trem a caminho da fronteira entre Espanha e França. Cheguei a uma cidade que devia ter uns quarenta moradores, desci na estação que não passava de um ponto de trem coberto no meio do nada. Peguei o próximo que passou, apenas para passar pro lado francês da fronteira. Outra cidade minúscula igual à anterior. Desci, peguei mais dois trens até chegar em Paris, lá pelas cinco da tarde, me encaminhei para o início da avenida Champs Elisées, onde me encontrei com o Rum.

Essa viagem seria sua última aventura, de Paris iria para Bélgica e depois voltaria para sua casa em Parras de La Fuente, cidade interiorana no deserto do norte mexicano, para uma vida padrão, e por isso, passamos os próximos quatro dias a toda madre.

Dizem, os espíritas, que a relação dos vivos com os que morrem, pode prendê-los aqui, ou impedi-los de se desenvolver no mundo espiritual, e assim como muitos dos beats da década de quarenta, o mesmo pode ser que tenha ocorrido com Jim Morrison, poeta e cantor da banda The Doors, que morreu em Paris e está enterrado no Cemitério do Père Lachaise na capital francesa. Ali, em seu túmulo, como tantos outros, diariamente, sem respeito aos outros, fomos beber juntos com meu ídolo durante a madrugada. Pensa numa festa num lugar inapropriado... chegamos lá com umas cervejas e já tinha uma pá de gente bebendo e se drogando junto do Jim Morrison, que provavelmente não consegue se livrar desse mundo por conta desse pessoal. Não sabia disso na época, só queria ter a oportunidade de compartilhar uma bebedeira com ele, e lá ficamos até acabar nossa cerveja.

Os quatro dias passaram rápido, mas foram bons e intensos, e apesar de tê-lo encontrado algumas vezes depois na sua cidade natal, ali na estação de trem aonde ele iria para Bélgica, nos despedimos aos prantos de quem nunca mais se veria.

Pensei que sorte eu tinha por fazer amigos assim, mas...

 

No México os grupos de Mariachis cantam canções tradicionais, principalmente as de borracheira, em troca de dinheiro, à escolha do pagante. Quando eu morei lá, a canção que mais escutei, e que me emocionava, e que virou uma tatuagem no meu corpo, se chamava El Rey, composta por José Alfredo Jiménez, em 1971 e que foi, devido a sua temática, rapidamente incorporada ao imaginário popular mexicano.

Eu me encantei na primeira vez que ouvi, e em pouquíssimo tempo morando lá já estava enturmado em todo o ritual em volta da música.

Quando chegamos à Parras de La Fuente, encontramos um amigo natural da cidade que havia morado no nosso apartamento quando estávamos todos (eu e mais cinco mexicanos) morando em Burgos, cidade histórica de Castilla Y León, na Espanha. Em Burgos éramos apenas um monte de jovens beberrões e estrangeiros numa terra desconhecida, mas em Parras de La Fuente, o Rum, que havia passado quatro dias peregrinando pelas ruas de Paris comigo, era como um rei, nascido e crescido numa cidade tão pequena que ele conhecia literalmente a todos e vivia uma vida sem preocupações.

Chegamos na casa de sua família e antes mesmo de vê-lo já escutávamos sua voz “QUE PASSA TIO? AAAAAAAIIIIIGGGHHH” com uma voz de baixo e aguardentosa característica sua, saudando-nos com a emoção de irmãos que se reencontram depois da guerra. Abraços e sacanagens se seguiram após o primeiro contato e fomos a rodar pela cidade, na fome, Rum nos colocou na caçamba da picape dele e nos levou numa barraca de rua para comermos um Pollo Rojo (na época ainda não era vegetariano).

Pollo Rojo, um galeto, marinado por 24h num molho de ervas aromáticas e temperos colorantes naturais, uns cinco tipos diferentes de pimentas (lembrem-se que estava no México, em que para não consumir pimenta tem que pedir pra tirar, mesmo que peça comida que não seja picante, o nível do que é picante para eles é outro, não à toa o lema culinário é “o que pica pra entrar repica pra sair”), assado com pele numa churrasqueira vertical até ficar sequinho por fora e suculento por dentro, acompanhado de jalapeños inteiros assados. Que desjejum!

Depois de comer, fomos para o deserto no entorno da cidade, Parras é o estereótipo da cidade mexicana de filmes de Hollywood, onde você para, olha em volta e só vê buracos de cascavel e aqueles rolos de feno rodando na areia. Sentamos e nos embebedamos como loucos de uns “culhões de búfalo” e partimos pro rally parrense, os bebuns vão na caçamba da picape, enquanto outro pilota o carro em alta velocidade pelas dunas e ganha quem for o último a cair do carro. Obviamente, fui o primeiro a cair, no primeiro tranco, da primeira duna. Mas me louvei como herói!

À noite, a família do Rum toda se reunião na cantina da família, para beber e comer, comemorando minha visita a eles. Veio até uma prima que era a pérola da família e estavam fazendo votos pra gente se ajeitar e se casar, tudo em segredo sem que eu ou ela soubéssemos. Lá pelas tantas, chegou um trio norteño, para tocar canciones de borrachera y mariachi, e animar um pouco a celebração. Não demorou muito até a vovozinha mexicana, matriarca da família com seus quase cem anos de idade, que não parou um segundo sequer de beber cerveja, começasse a gritar e xingar o marido morto “te ódio culeroooo” com uma gama de palavrões que nem mesmo eu nos círculos mais baixos que frequentava conhecia.

El Rey, a canção que não pode faltar. A família me colocou ao lado do trio, com Rum e meus outros dois amigos, para cantar, para me mostrar para a tal prima, e todos já bem pedos, começamos a cantar a todo pulmão, sem pudor das péssimas vozes e das línguas enroladas, “Yo sé bien que estoy afuera / Pero el día que yo me muera / Sé que tendrás que llorar (llorar y llorar) / Dirás que no me quisiste / Pero vas a estar muy triste / Y así te vas a quedar / Con dinero y sin dinero / Yo hago siempre lo que quiero / Y mi palabra es la ley / No tengo trono ni reina / Ni nadie que me compreenda / Pero sigo siendo el rey / Una piedra en el caminho / Me enseñó que mi destino / Era rodar y rodar (rodar y rodar) / También me dijo un arriero / Que no hay que llegar primero / Pero hay que saber llegar / Con dinero y sin dinero / Yo hago siempre lo que quiero / Y mi palabra es la ley / No tengo trono ni reina / Ni nadie que me compreenda / Pero sigo siendo el rey”.

Depois as musicas ficaram mais animadas e começamos a dançar, a prima e eu, mas o dever nos chamava, e Rum nos colocou os três e o trio norteño na picape e fomos, no meio da madrugada, tipo umas duas, fazer uma serenata para uma paixão que ele tinha. O trio tocava, Rum cantava com a voz de baixo, contratenor que tinha, e nós fazendo vocais de apoio mais agudos, por umas cinco ou seis músicas, acordando toda a vizinhança, inclusive o pai da moça que saiu da casa com uma espingarda, dando tiro pra cima e nos fazendo correr como velocistas em olimpíadas. Fui ser achado pelo Rum meia hora depois, perdido no meio da cidade, e fomos procurar o sanfoneiro do trio. Ano passado nasceu a terceira filha deles.

 

Chegamos no Sana a pé, desde Casemiro de Abreu, por falta de kombi pra levar naquele dia. A subida é cansativa e por sorte, talvez não, porque sempre, viajávamos leve, pouca roupa e pouca coisa, para garantir todas as possibilidades de movimentação, aonde quer que fosse.

O Sana é o paraíso dos neo hippies da minha geração, uns atrasados que nasceram depois do Woodstock e sonham ter estado lá, que vão pra lá curtir a natureza e ficar mais perto do seu respectivo divino particular, sob a vigia do Pombo que estufa o peito para proteger o lugar.

Já estávamos cansados das badalações e festanças dos últimos meses e queríamos chegar no céu, longe da urbe que resseca e corrói os princípios mais humanistas das pessoas, armadilhados pelo capital precisando comprar e comprar e comprar, e para isso trabalhar e ser explorado, e trabalhar e ser explorado, e ser explorado e trabalhar, e sorrir por tudo isso, tendo como pagamento umas pílulas prescritas contra o estresse, e uma vez no céu, queríamos nos tardar lá e ver se poderíamos sei lá fazer parte de algo maior que não tivesse o dinheiro como deus.

O Sana é pequeno e fácil de se encontrar, e não muito depois que passamos pelo portal de entrada da cidade já estávamos montando a barraca no camping onde encontramos vaga, e por ter sido tão bacana, onde ficamos todas as vezes que voltamos por lá. Viajávamos muito há muito tempo, juntos – dessa vez desfalcados de um, e por isso era tranquilo dividir a barraca, podendo com isso garantir que estivéssemos ainda mais leves. Barraca para quatro pessoas cabem dois.

Com a “casa” montada, partimos pra cachoeira do escorrega, limo na pedra faz o desavisado escorregar e se estabacar, uma das sete cachoeiras mais acessíveis do Sana, e lá ficamos um bom tempo, deixando aquela água doce e gélida lavar o corpo, a alma, a consciência, em meio a algumas famílias locais, turistas, uns hippies velhos que mais tarde descobrimos estão sempre por lá nus, uns artistas da região, e a fauna e flora local que abençoam os respeitadores do ambiente (uma vez dormi numa pedra e acordei com uma cobra dormindo ao meu lado embaixo do sol quente do meio dia, que quando acordei e me mexi, me olhou, a cobra, esticou o corpo e saiu se arrastando na pedra até pra dentro do mato, como quem tivesse me agradecido pelo calor corporal compartilhado).

Como bom aventureiros, exploramos todas as cachoeiras durante aquela tarde, pra voltar pro camping no início da noite e descansar umas horinhas antes de ir pro centrinho da cidade ver um show do Baia, artista que escutávamos juntos. Descansar em camping é igual a ficar sentado num sofá de madeira com umas cinco pessoas que você não conhece dividindo whatever estava sendo consumido, de chá à qualquer entorpecente natural, e assim conhecendo muita gente nova, na maioria das vezes pertencente ao mesmo grupo de interesses que você mesmo, criando uma conexão e uma sensação de pertencimento.

Uma vez que o grupo já se familiarizou, parte geral pro show, que agrega todas as pessoas que estão presentes na cidade naquele momento, e depois do show, o estica é sempre maneiro com todo mundo cantando as músicas em voz alta pelas ruas até chegar no camping. Fizemos isso, assim como todos as dezenas de outros grupos no caminho, muitas vezes conciliando as musicas cantadas, aumentando os coros e nos divertindo geral como se o mundo fora daquele encantado não estivesse o caos que sempre foi, como se por algum milagre divino naquele pedaço de terra, o céu, teto de nossa casa, possuísse estrelas vivas e não passasse sinal de aparelho algum de telecomunicação que controle as mentes e vidas de quem fica no caminho das ondas.

A madrugada apenas começara, os que no camping estavam vivendo por aquele período se agregaram em volta de um espacinho de terra queimada, nuns banquinhos feitos de pedaços de tronco de arvores, batendo papo e bebendo e rindo e contando suas próprias histórias de vida uns pros aleatoriamente, com o amor nascendo lépido e fagueiro num casal ou outro. Juntamos umas lenhas, uns carvões que sobraram de um churrasco que alguém havia feito uns dias antes, um pouco de jornal velho e o final de uma garrafa de tiquira que eu tinha na mochila, e acendemos uma fogueira no meio de todos nós, umas vinte cabeças, iluminadas em sua vagabundagem, hipnotizados pelas cores vivas e quentes diante de todos nós.

Os sorrisos foram sendo assimilados e ficando mais introspectivos a medida que a madrugada avançava, cabeças deitaram em ombros próximos, mãos se juntaram entrededos, panos foram sendo compartilhados em duplas, as vezes trios, e a fogueira se encaminhando pro céu atordoou a todos num momento de encantamento, folclórico, em que Pachamama, Gaia ou como quer que você chame a personificação que você dá pra força da natureza, se apresentou diante de todos nós, abraçando o céu que olhávamos todos ao mesmo tempo boquiabertos e extasiados como num momento de iluminação e descoberta dos segredos mais primitivos do mundo, que jamais passaríamos de novo, compartilhando um momento único que nos uniria para sempre, mesmo que só por um instante.

Tuc tá tuc tá tá tuc tá tuc tuc tá começou a soar com algumas mãos batendo nos tocos de arvore embaixo de nós, acompanhando os sons de grilos e luzes de vagalumes e gritos de macacos da noite atlântica que logo se transformou numa catarse musical coletiva sem precedentes, que até hoje é contada pela região, em que ao primeiros passos de descontrole corporal entregues ao momento, quem não batucava cantava e dançava com os ombros e batia palmas e gritava ou levantava e deixava o corpo se mexer no ritmo daquele mundo gigante que se desenrolava em volta da fogueira, como nativos faziam antes da chegada dos brancos nessa terra quinhentos anos antes, tomados pela energia dos outros corpos próximos, num ritual de beleza e elevação espiritual que tinham nas carnes apenas veículos nesse mundo material que vivemos, e as roupas foram ficando pesadas e inconformes ao que estávamos vivenciando e começaram a ser jogadas pra fora do circulo que fizemos e os batuques e as danças cada vez mais frenéticos denunciando um estado de comunhão de todos com aquele momento inédito e irrepetível, pelo menos para os que ali estavam. Os corpos nus já se moviam quase coreografados naquele frenesi natural que passavam todos e o fogo que já fazia parte do céu e do mato e da terra e dos corpos clareava tudo permitindo que lá de cima quem estivesse olhando a terra naquele momento pudesse ver a natureza em sua maior felicidade noite adentro sem limites e sem humanidade.

O dia clareou e todos os corpos estavam ainda nus conectados em volta da fogueira com suas energias exauridas, voltando aos poucos, cada um com seu invólucro de espírito, ficando de pé, com lágrimas nos olhos, preparando-se para um banho de rio todo mundo junto, em silencio e calma, para começar o dia que se anunciava nos primeiros raios de sol da manhã, ultimo dia de estadia de muitos, inclusive nós, que já partíamos para a próxima parada.

A morena, que segurava minha mão enquanto dançávamos, me abraçou, me beijou, e, enquanto eu lacrimejava, saiu andando, olhou pra trás e sorriu...

          Então íamos nós, Cabo Folia!

    A programação era curtir uma das noites do Cabo Folia tranquilos, no que a gente considera tranquilo, apenas sem preocupações, já que sabíamos desde sempre que uma noite no Cabo Folia seria tudo menos tranquila, ainda mais comigo, Tom e Dadi, esse último o que considerávamos o líder da gangue. Nós três juntos, boa coisa não poderia dar, e não deu mesmo não, mas não pensávamos àquela altura do campeonato que a coisa ia ser pior do que se poderia imaginar.

     Não imaginamos porque éramos inocentes demais, pois qualquer pessoa que nos conhecesse bem saberia de antemão que a promessa desse Cabo Folia era um desastre em nome da irresponsabilidade.

     Estávamos os três sem grana para uma viagem longa e divertida, mas nossa falta de limite, sempre nos ajudou a nos virar e achar soluções para nossos anseios juvenis, para nossa pré-disposição e excesso de vontade de fazer merda. Papo vai papo vem, conseguimos convencer dois amigos do Tom que não conhecíamos a ir para o Cabo Folia ficando na mesma casa que a gente ficava em Arraial do Cabo, sem se preocupar com diária de hotel. Convencemos os dois, mas nosso interesse era um só, Gustavo, que tinha o carro, e nos levaria a todos. Após todo o convencimento, que dependeu de um nome de mulher e uma garantia de uma trepada em algum dos quatro dias de viagem, nos restava apenas esperar a quarta-feira à noite para pegarmos a estrada.

     Aulas e bebedeiras de segunda a sexta, mais bebedeiras que aulas, mas quem há de julgar o coração do jovem?, e o relógio andando a passos lentos para chegar o grande dia. Compramos durante a semana o dia que iríamos entrar no Cabo Folia, não foi caro, apenas trinta e cinco reais, mas para nós era uma fortuna, dada a quantidade profissional de cerveja que poderíamos comprar com essa grana no Botequim do Aníbal – que fazia uma bela promoção de ampola de Brahma a um real nas terças feiras, e nos preparamos para a saída da aula na quarta. Saímos sem parcimônia, correndo pelas escadas do colégio com mochilas nas costas.

     Do Colégio, fomos direto pro centro, entre a Cinelandia e a Lapa, onde estaria o Gustavo nos esperando depois do trabalho dele para irmos direto pra Arraial. Pegamos a carona, eu, Tom, Dadi, Gustavo e o Baixinho, que até hoje não sei o nome verdadeiro. Fomos direto, tentando chegar no final da Rio-Niterói antes das 19h, quando o transito começaria a ficar mais tenso e acabaríamos pegando aquelas famosas oito horas de transito num itinerário que não levaria três. Fomos voados!

     Nada de diferente no meio da estrada, o que me poderia me levar a estranhar nosso futuro, vez que todas as viagens dá alguma merda em algum momento da estrada, mas minha ansiedade me ludibriava e não pensei em como a falta de um contratempo poderia ser um presságio do que deveríamos esperar. Não me atentei a nada. Dentro do carro, o radio tocava um cd de musicas compiladas pelo próprio Gustavo que estava todo arranhado e acabou que a única musica que tocava, milagrosamente, inteira, era Pequena Garota do Suel e Amaro. Nem sei quem são, mas só pelas memórias que essa musica me traz já me têm como fã-zaço! Seguimos a viagem, duas paradas para alimentação, com direito a um calote malandro por conta de Dadi e Tom e voltamos pro asfalto para chegarmos logo e iniciarmos os trabalhos.

     Chegamos umas quase dez da noite em Arraial do Cabo, botamos o carro pra dentro da casa e saímos pra jantar, o mesmo de sempre, x-tudo caprichado na maionese e molho barbecue e cerveja. Era quarta à noite e nosso dia no Cabo Folia seria sexta. Comemos e fomos direto pra casa de umas amigas do Tom para começar os trabalhos de convencimento de Ritinha (que eu também não sei qual era seu nome verdadeiro, mas a chamávamos assim mesmo) ficar com o Gustavo, senão era capaz do boyzinho meter o pé e deixar a gente sem veículo.

     Passamos a noite bebendo e conversando e pela graças do bom Deus, ou pela malícia do tinhoso, Ritinha até que se encantou pelo Gustavo ao longo da noite e dos copos de cerveja, que lá pelas tantas eles começaram a ficar. Olhei de canto de olho pro Dadi, que me olhou com cara de plenitude: a arapuca estava armada e o plano dando certo. Dali pra frente, era deitar rolar.

     Fomos pra casa pelas três da madrugada e deixamos o Gustavo lá nas presas da Ritinha, que come qualquer um que ela sinta vontade, para encontrar com ele no dia seguinte para ir pra Praia do Forno. Pela manhã, eu e Dadi fomos comprar pão na padaria que ficava na estrada, para tentar sair sem pagar – tínhamos mapeadas umas seis ou sete padarias que poderíamos fazer isso nas estradas próximas. Eu sou uma negação dirigindo e o Dadi até que dava pra levar o carro. Botei uma bermuda e uma camisa, Dadi só de bermuda, pegamos a chave do carro do Gustavo e fomos nessa. Só de saída, enquanto manobrava de ré o carro, Dadi arrastou a lateral do carro no portão da casa, e por sorte apenas quebrou o retrovisor do carro, que rapidamente já colocamos no lugar encaixado fingindo que não havia nada para que o próximo que pegasse o carro saísse como culpado pelo dano. Quem nunca o fez?

     No meio do caminho em direção à primeira padaria que tentaríamos dar calote (seria a única do dia caso conseguíssemos), buscando algum isqueiro pro Dadi acender um cigarro, encontrei embaixo do banco um tipo de bolsa de trocados, desses que se usam para pagar flanelinhas, carregada de notas baixas de dois e moedas de um real. Maloquei pelo menos uns quarenta reais pra gente. E deixei quieto, a bolsa no lugar. E tacamo-lhe ‘pequena garota’ de Suel e Amaro no volume mais alto do rádio e fomos embora calotear o café da manhã e quiçá o almoço.

     Chegando lá, nossa tática de guerrilha era sempre a mesma, cara de pau, orelha em pé, o motorista no carro ligado de ré pra padaria e a porta do carona aberta. As vezes funciona, as vezes não. Já de primeira quebramos a cara. Saí, deixando a porta aberta, andando devagar e entrando no estabelecimento dando bom dia e sorrindo. Assim que entrei, o balconista, coroa, gordo, e nada otário, já virou pra mim e “por que a porta do carro tá aberta? Vocês não são desses garotos que ficam dando calote por aí não né?”, disse me olhando desconfiado. Eu, com o cu na mão, perguntei se tinham geléia de mocotó, disse que não éramos desses não, e sentei no balcão. Ele foi lá atrás, olhei em volta e tinha muita gente até para eu tentar um furto, e esperei ele voltando com a negativa do meu produto. Agradeci e me mandei, com os passos calmos.

     “Dadi, o cara sacou logo a parada.”, falei sem muito animo, no que ele respondeu me perguntando o que fazer. Mandei seguir pra segunda e fui matutando a porra do plano b. Arriscado, mas tive que assumir meu exercício matinal, e repedindo a mesma tática, só que com o carro parado mais longe e fora da vista do balcão, me vejo saindo correndo que nem um louco com uma caixa de leite (essa foi paga), duas latas de sardinha, pão francês quentinho, queijo amarelo, uma manteiga de marca duvidosa, um pote de maionese que não era Hellmanns e duas latas de Itaipava geladas. Nunca passaria numa aula de educação física direto no colégio, mas dessa vez o professor teria orgulho de mim, que eu deixei neguinho comendo poeira e me enfiei no carro como se eu fosse o Bruce Lee naquele filme que ele luta contra uns ninjas.

     Saímos varados sem nem olhar pra trás. No meio da estrada paramos de frente pras salinas de arraial, e ficamos sentados no acostamento de frente pras “piscinas”, aquele campo vasto de tanques cheios de água de mar e da lagoa de Maçambaba secando ao sol pra dar sal, rindo, cada um com sua lata de Itaipava. Nossas conversas eram sempre regadas a Roberto Carlos, falando sobre ele e cantando musicas dele, elucubrações sobre a vida que nunca terminavam porque não tínhamos saco para isso, garotas do colégio, do colégio perto do colégio, da faculdade perto do colégio, das conquistas e derrotas, mas nesse dia não conversamos, apenas olhávamos pras salinas e nos olhávamos e ríamos e brindávamos a nada aparente e bebíamos. Não durou muito, pegamos o carro e voltamos, para pegar o Gustavo, que nos esperava acabado e de sorriso de orelha a orelha, com cara de bobo, e fomos tomar café da manhã.

     O café foi tranquilo, pão com queijo e manteiga e copos de leite puro. Nada demais. Não tomei o leite por causa da cerveja que já havia tomado. Fizemos o almoço logo, um panelão em que misturamos o atum que eu maloquei junto com umas latas de sardinha velhas que estavam na casa desde a outra viagem e a maionese. Fomos pra praia, e o almoço ficou na geladeira intocado. A praia do Forno sempre foi e sempre vai ser meu paraíso na terra, e toda vez que estou lá, não estou em nenhum outro lugar.

     Sentamos pelo meio da extensão da praia, onde há não mais que alguns meses estive com Tom e mais alguns, curtindo uma noite chuvosa todo mundo nu, e tive boas recordações daquele mesmo lugar. Fiquei ali sentado, pensando em como aquele lugar é mágico, como as águas são fodas, lindas e tudo mais de muito melhor que em qualquer lugar do mundo, enquanto os outros mergulhavam e jogavam altinho eu ficava só sentado olhando, em meus devaneios praieiros, com todos os problemas da vida, sejam grandes ou pequenos, longe de mim. Ali eu me sentia parte da Criação de uma maneira tão vívida e tão forte que se qualquer pessoa pudesse sentir o que eu sinto quando estou lá, não precisaria de um padre, pastou ou o que fosse pra lhe dizer como chegar a Deus. Ali, Ele estava do meu lado, sentado, olhando junto comigo.

     O dia passou rápido, como qualquer dia, hora, minuto, semana, ou mês quando a gente está se divertindo. E foi só o Sol começar a se por, picamos a mula de volta pra tomar umas na praça perto de casa junto com a galera. Chegamos em casa, tomamos banho e fomos todos pra essa praça que a galera da cidade fica indo pra beber em vários grupos, comer uns ‘podrão’ e ficar de bobeira, paquerando se pegando e trocando ideia. Começamos a beber com um grupo de minhocas que já conhecíamos de outras vezes, e essa galera tinha uma condição maneira, então não nos preocupamos com as bebidas por aquela noite, e elas não paravam de vir.

     Depois de umas duas ou três horas bebendo, as coisas começaram a ficar tensas por causa de uma ruivinha gatinha que tava olhando pro Dadi direto, mas que tinha namorado. Ela tava afim do Dadi, e já estava rolando um burburinho por causa disso entre as pessoas porque o namorado dela tava chegando e tinha uns palhaços que com certeza iriam falar pra ele. O cara era um desses trogloditas imbecis, que se achava o maioral, mas que levava lesa da mulher o tempo todo e ao invés de largar ou resolver o problema dela, queria resolver as coisas com os outros, como uma maneira de se sentir o macho alfa intimidador. Dadi coitado que nem esboçou nem vontade nem nada sequer para sair com a ruivinha já tava cotado para a morte, e bêbado o suficiente pra não se importar ou não conseguir se importar. Acabou falando que não precisávamos nos preocupar e que continuássemos bebendo tranquilos.

     Não passei nada para os outros, mas no meio de uma mijada, Dadi me cantou de meter a porrada no babacão caso ele tentasse algo com ele visto que eu era o único com porte e tendência suicida suficiente para que nos mantivéssemos bebendo o máximo possível de graça até que a confusão começasse. Concordei, ora, não ia deixar de beber de graça por causa de um pangaré com problemas com o tamanho do próprio pinto. O cara chegou, uns idiotas meteram a boca no trombone, o cara não quis nem saber se havia ou não acontecido algo de verdade, empurrou a garota no chão e foi tirar satisfação com o Dadi, que tava de boa encostado num poste fumando o cigarro. Pensei ‘pequena garota’ que faz os homens se comportarem como animais.

     Esse troglodita era o dobro do meu tamanho, tudo inchaço de bomba, agua pura, mas intimidava os mais receosos, os frangotes e os prudentes, mas ocorre que no meu círculo social, não conheço ninguém assim. O troglodita já chegou gritando com o Dadi, perguntando que que ele tava querendo com a mulher dele, dando uns empurrões tipo tirando satisfação, aqueles empurrões debochados, nesse mesmo momento virei pro Tom e disse: “Cara, faz o seguinte, eu vou quebrar essa garrafa na cabeça dele e tu dá um soco naquele amiguinho dele que ta chegando mais perto ali, beleza? É eu quebrar e tu bater, a gente pega o Dadi, corre em direção ao meio do grupo mas sem intenção de parar, e vamo direto pro carro.”, e virei pro Gustavo e pro Baixinho e disse que voltassem pro carro pelo outro lado da praça e fossem com ele mais pra perto da Praia dos Anjos para que a gente chegasse até lá, coisa de uns cinco minutos correndo em linha reta, por uma ou duas ruas escuras.

     Quando o amigo do troglodita chegou mais perto, que ele se encheu de macheza pra aparecer ainda mais pros amigos, e levantou a mão pra bater no Dadi, quebrei a garrafa de Antártica meio cheia na cabeça dele, no que deu tempo de levar um pescotapa do amigo dele, sair catando cavaco, cair no chão e  ver a mão do Tom varando a cara dele de lado que o cara caiu que nem uma tora no meio do desmatamento, no que saímos correndo pro meio da galera eu, Tom e Dadi na maior atropelagem com os braços fechados protegendo a cabeça igual os sparrings de boxe, com as duas mãos fechadas no cocuruto e os antebraços colados nas laterais dos rostos para não receber nenhum golpe. Passamos sem olhar pra tras derrubando todo mundo e fomos em direção à Praia dos Anjos.

     Entramos no carro sem demora, e passamos pela extremidade da praça mais vazia, no que tava rolando a maior pancadaria generalizada entre todos os grupos que estavam lá, com nossos dois amigos marrentos ainda no chão, e a polícia tentando acalmar a situação. Nem ficamos pra ver, praquela noite, já estávamos no grau, metemos o pé pra Cabo Frio comer um podrão naquela pracinha que tem uns quiosques, e de lá fomos pra casa dormir. A quinta-feira acabava da pior maneira possível, fugidos e cansados, sem nem ter aproveitado o efeito do álcool direito.

     Pra casa, era o melhor a fazer.

     Quando o dia amanheceu e o sol começou a nascer eu já estava acordado, do lado de fora da casa deitado na grama olhando pro céu. O céu noturno estava limpo, sem uma nuvem e carregado de estrelas, o que me prenunciava um dia de sol forte e calor, ótimo pra mais um dia de praia antes de irmos pro Cabo Folia a noite. Não quis me precipitar, porque, afinal, por mais vontade e menos responsabilidade que se tenha, o corpo cobra, e eu não queria chegar a noite já fudido, então, não quis me precipitar e resolvi passar o dia tranquilo, sem bebida, sem fortes emoções e sem muito esforço. Fomos pegar uma praia na Prainha em Arraial mesmo, fiquei debaixo de sombra, dava mergulhos longos na água gelada e bebi agua de coco e comi um peixe saboroso no almoço. O pessoal, acabou seguindo um pouco essa rotina também, até porque, já tava geral meio mais pra lá do que pra cá dos últimos dias, e a noite prometia.

     Na volta da praia, passamos no mercado e compramos a janta, nada demais, não costumávamos comer nada muito rebuscado, compramos umas salsichas e pão francês, um molho de tomate, outra maionese, mostarda e ketchup, queijo ralado, milho enlatado e batata palha... pro jantar, que ainda levamos umas garrafas de Sangue de Boi, um vinho baratão, que não questionarei a qualidade por respeito aos produtores, mas um vinho baratão que é bebido porque rende muito pelo preço dele. Em casa chegamos, preparamos o jantar e comemos.

     Fomos nos arrumar logo depois do jantar, umas sete da noite e oito da noite já estava geral pronto. Engraçado como eu nunca me arrumei muito, fui até questionado pelo Gustavo, que tava numa beca que eu nem entendi direito. Era um Cabo Folia, queria era exorcizar e não chegar lá preocupado com gel de cabelo. Fui de bermuda, all star preto velho e uma camiseta de alça porque tava calor pra caralho em contraste com calça branca, camisa polo, sapatenis e perfume dele. O resto tava no meio do caminho.

     Saímos de casa, fomos pra casa onde a Ritinha e umas amigas estavam e já no meio do caminho, dei umas goladas de Sangue de Boi, todos demos, e estávamos pilhadaços para a noitada que começava. Conversamos rapidamente com as meninas, e marcamos de encontra-las já dentro do evento la pelas meia-noite. Voltamos pra casa, nos munimos com o que tínhamos de dinheiro, ingressos nos bolsos (eu dei uma cagada para me garantir) e partimos. Entramos os cinco no carro do Gustavo, ‘pequena garota’ no volume máximo, pé na estrada, Arraial Cabo Frio em tempo de fórmula um com janelas abertonas pro vento entrar e sem nenhum sentimento de culpa do que deveria ocorrer dali pra frente.

     Quando chegamos em Cabo Frio, estacionamos relativamente perto do evento, num gramado enorme que estava servindo de estacionamento mesmo, onde as pessoas já estavam doidonas perdendo a linha e o evento. Paramos o carro e fomos em direção à Praia Grande, onde a estrutura da festa tava montada, gigante, cheio pra burro, aquela muvucada típica desse tipo de evento. Mulherada, playboyzada, mulambada, um monte de galera.

     Na praia a galera andava com bebidas nas mãos, carros parados em cima das calçadas com os porta malas abertos com aquelas caixas de som tocando desde funks antigos (aqueles de noventa e cinco que foram compilado nos cds do Rap Brasil um e dois, que tinha aquele lobo malandro na capa) a uns funks novos e uns axés e umas musicas merdas de radio e outras musicas ainda mais merdas só que divertidas pra galera meninada dançar esquentando antes de entrar para ver os shows.

     Falei que já estava cansado de ficar andando sem ermo só pra ver como tava a situação, e que queria começar a beber logo que não ia mudar nada ficar ali só analisando e que seria bom ou entrar, ou começar a interagir com a bebida e com as pessoas. Não à toa falavam que eu não tinha limites, tive dificuldades durante toda minha vida de pensar no dia de amanhã. Então numa unanimidade, todos concordaram comigo, e fomos comprar umas bebidas para nossa noite que prometia mais do que imaginávamos e posso dizer que haveria de ser, hoje olhando para trás, uma das, quem sabe a mais, mais frenéticas da minha vida.

     Paramos num quiosque, e começamos a contar dinheiro, cada um o seu, para fazer a programação da melhor maneira e otimizar a bebedeira. Parti logo pro whisky, peguei meus dez reais e dei logo em três doses de Teachers, me sobrando um real que dava pra tomar uma lata de cerveja depois ou duas garrafas de vinho Dom Bosco de meio litro, mesmo top do Sangue de Boi, mas estava sendo vendido por ambulantes na rua.

Tomei os três whiskies cada um numa talagada enquanto os outros foram comprando suas bebidas uns cerveja outros dom bosco no final das contas todo mundo se preparando para ficar o mais doidões possível no menor tempo para tentar aproveitar desde o quanto antes a onda e saímos por aí andando e eu já comprei logo meio litro de dom bosco para ficar com alguma bebida na mão e fui bebendo a gente em direção à porta do evento no que eu encontrei minha prima filha da irmão do meu pai que também tava tão doida quanto eu e marcamos muito rapidamente de nos encontrar la na porta antes de entrar dali a uma ou duas horas porque ela ainda tava procurando ingresso pra uma amiga dela num preço razoável justo e a deixei lá para seguir meu caminho de bebedeira até que o Tom resolveu que tinha que vomitar porque já não tava muito bem e foi todo mundo atrás dele em direção à praia e fomos pra areia pra ele poder vomitar atrás de um dos quiosque da praia que tavam fehados e começou a vomitar e o Gustavo falou que ia lá dar um mijão e parou do lado dele e de repente o Dadi filho da puta saiu do meu lado em direção aos nossos amigos e de repente o vejo se ajeitar de cócoras com a calça arriado mandando um barro naquela fila bizarra de vomito mijo e merda que nunca pensei que veria numa noite como essa e lá ele tava cagando e de repento só o vejo olhando para os lados com cara de curiosidade como se tivesse desentendendo o que se passava e ficou lá durante um tempo agachado com a bermuda no joelho e esticou o braço pra desenterrar umas folhas de jornal de debaixo da areia para poder limpar a bunda e assim o fez e eu e o Baixinho que tava do meu lado nos entreolhamos com cara de nojo e eu disse que saía cagado mas não fazia aquilo e o Gustavo já tava voltando pro nosso lado e desistiu pra compra uma cerveja no calçadão e ficou lá esperando enquanto o Tom continuava tentando vomitar mais para ficar bem pra continuar bebendo e o Dadi vei em minha direção e ficou se cutucando e ajeitando sem parar do meu lado até virar e dizer “cara preciso me limpar direito num vai dar pra comer ninguém do jeito que eu to vamo comigo até a água pr’eu poder me limpar no mar e aí eu fui com ele que tirou a roupa toda e entrou na agua pra terminar de cagar e e se limpar e enquanto ele estava lá abaixadinho as ondas baixas vinham e iam e cada vez que vinha ele se levantava pra não ser encharcado ou desequilibrado e quando ela ia ele se abaixava de novo e terminou de cagar e fico repetindo essa porra enquanto ficava jogando água na bunda com uma das mãos e com a outra dava aquela passada de tirar o excesso e depois ainda abaixou meio tronco com a bunda apontada pra mim aquela porra cabeluda escrota enquanto ele lavava as mãos e ainda saiu secando as mãos no cabelo pra pegar a bermuda, cueca e camisa do meu ombro e vestir e calçar os tênis dele pra se arrumar e agradecer que pelo menos o Tom parou pra vomitar que deu tempo dele se livrar da carga que tinha e voltamos e o Tom já estava cem por cento de novo em pé e pronto pra botar pra quebrar mas o Baixinho e o Gustavo que queriam pegar mulher mais do que se divertir já haviam entrado e deixado mais uma grana com a gente pra bebermos mais e a chave do carro também caso precisássemos, e precisaríamos, e então fomos pra rua tentar beber mais e aí no meio caminho bebendo meu Dom Bosco junto com Tom e Dadi me passa um cara muito doido com uma garrafa d’água daquelas de cinco ou seis litros cheia de cachaça dentro com aquela mangueira que faz a bebida descer na pressão apostando com todo mundo que ele via no caminho pra ver quem conseguia ficar mais tempo bebendo direto e o Tom me pegou pela mão e fomos direto lá beber a cachaça do cara pra ganhar a aposta porque ele sabia que eu sempre curti cachaça e ele tinha uma manhã da parada descer a garganta sem dar goles o que o fazia não sentir a bebida na boca até que parasse de beber e eu perdi a aposta mas ele ganhou e saímos de lá com algumas latas de Antártica gelada e muito mais loucos do que chegamos nessa eu já sem saber o que tava fazendo muito bem e tentando imaginar como fazer pra parar mas sem o menor controle que do jeito que as coisas tavam indo a coisa toda não ia prestar e então como que do nada eu tentando me equilibrar me surge um desses playboyzinhos sem camisa pra mostrar que ta fazendo efeito a malhação com uma garrafa pet de coca-cola até a metade de um líquido amarelo com gás e uns pózinhos lá nadando e oferecendo insistentemente “toma toma” e o Tom que não via coisa palmo a sua frente pegou a garrafa e perguntou o que era para a gente saber da boca do maluco que era O2 aquele energético com cocaína diluída “ódoiscomcocaina ódoiscomcocaina” e Tom sem dar a atenção devido meteu guela abaixo e me passou a garrafa que bebi um pouco mas a parada era ruim demais e parei na metade tendo tomado quiçá um ole inteiro e repassado a garrafa de volta pro muleki que nem viu o que aconteceu já tava oferecendo para outra pessoa e se mandou sem que a gente visse nada e o funk bombando alto e etourando os tímpanos num chevete vermelho sem capota no que eu virei pra falar com Tom que já estava perdido e não ainda olhei por cima da multidão mas não o vi e logo virei pro Dadi que tava virando uma garrafa de Dom Bosco e perguntei o que a gente fazia e ele me disse para irmos na porta do evento e ver se achamos ele lá senão a gente vendia os ingressos que a gente também tava com o do Tom e usava o dinheiro pra beber mais e quem sabe o que mais e a gente chegou na porta e conseguimos inclusive vender um dos ingressos para essa amiga da minha prima maior gostosa que ficou toda toda felizinha porque ia poder entrar lá e disse que ia recompensar de alguma maneira e eu já pensei besteira mas logo me desvirtuei para tentar vender os outros dois ingressos no que um cambista desses que ficam só falando no pé do ouvido “se tiver ingresso eu compro se tiver ingresso eu compro” numa altura que não sei quem consegue ouvir aí que depois de uma meia hora de negociação conseguimos vender os ingressos p’esse cara assim por dez reais a menos do que pagamos cinco de diferença em cada um nos rendendo exatamente sessenta reais além dos trinta e cinco que já havíamos pego com a amiga da minha prima e estávamos com quase cem conto pra gastar a vontade e assim foi durante toda a extensão da noite e começamos a andar no meio da galera quando sentimos aqueles empurrões derrubando as pessoas e uns gritos de dor altos pra caralho e de repente tava a gente sendo empurrado e passa um desses caras com aquela roupa de apoio com seus quase dois metros de altura um negão forte pra caralho bonitão carregando uma loura com o pé todo ensanguentado assim escorrendo e ela gritando pacaceta e eu lerdo olhando aquela porra toda acontecendo sem entender nada ainda tentando me manter em pé no que o Dadi sai me puxando atrás da procissão de curiosos e zuadores até quando o cara soltou a menina e começou a conversar com ela e ela gritando respondendo as perguntas sem paciência e sem noção do que tava acontecendo “eu tava com meu namorado e alguém jogou uma garrafa de champagne na rua e quebrou perto da gente e quando meu namorado foi ver tava rolando uma porradaria uma briga sei lá e as pessoas abriram uma roda empurrando quem tava em volta e quando me empurraram pisei nessa caco que tá aí ó ó dentro do meu pé cara” “não cara não sei onde ele tá só sei que na hora que” “ ele deve ta me procurando” “me ajuda” e nisso o tal cara do apoio perguntou se ela tava de carro e ela assentiu com a cabeça e pegou a chave e deu para ele no que ele perguntou qual era o carro “palio preto placa tal perto do correio” e perguntou quem ali perto poderia dirigir para ajudar e o Dadi levantou o braço e pegou a chave e me olhou e eu perguntei se ele iria voltar com aquele carro ali e ele me olhou com aquele olhar de “tu ta viajando?” e eu disse que ia com ele e fomos andando saltitantes que iríamos pegar o carro dela pra zuar por aí e eu pensando em todas as merdas que a gente ia fazer com aquele carro até em vender pra beber mais e tava apressando o passo quando o namorado chegou correndo atrás da gente pra pegar a chave e eu ainda disse pra não entregar mas o Dadi começa as merdas mas as vezes não sabe como fazer pra terminar no que ele sempre precisava de mim pra dar prosseguimento pras incandescências dele e devolveu a chave e a gente foi mijar numa van ali perto e depois fomos andando e tivemos a solução pra beber ainda mais que fomos chegando nas meninas um de cada vez com aquele papo frouxo só para pegar a garrafa de vinho que elas bebiam e chegamos um e pedia o gole pra menina e passava a garrafa pro outro que sumia com o vinho e assim a gente fez por umas quarenta e poucas garotas ateh quase de manhã quando fomos dar aquela encostada pra descansar e no meio do caminho passamos pelo carro do Gustavo e estava lá o Tom dormindo no banco de trás e a gente acordou ele que acordou perguntando onde tava e nós dissemos “Cabo Folia” e aí metemos o pé pra beber mais porque vendo nosso amigo ali nossas energias foram renovadas e aí andando na xepa do evento resolvemos ir roubar uns bêbados apagados na praia e pegamos a primeira descida pra areia tinha um grupo de meninas ali uma mais feia que a outra lembro até hoje Betinha e Pati esperando uma outra menina e essa tal de Pati acendeu o Tom que ficou lá chegando nela e tentando beijar e ela se esquivando e ele correndo atrás dela aquela cena horrorosa de se ver e eu e o Dadi rindo pra caralho e o Tom chega dizendo que a mina so fica com ele se alguém pegasse a amiga dela e eu olhei pro Dadi e falei pra ele que não vou pegar mulher feia pro outro pegar mulher feia e aí eu ainda falei que nem adiantava mne olhar que a vez era dele mesmo por conta da mina de Guapimirim da outra viagem e ele fez um muxoxo e foi chegando perto da Betinha que era maior que ele em todos os sentidos e então ele ainda tentou apelar pra minha solidariedade e me olhou como quem pede pra trocar e aí eu virei a cara e quando eu virei de novo tava ele beijando ela com cara de nojo e ela sorrindo de olhos fechados aí logo que ocorreu a Pati pegou o Tom e aí veio chegando a terceira amiga toda toda com três copos de caipirinha na mão e eu peguei uma pra mim e falei que era a coisa mais nojenta que eu já tinha visto aquela cena e começamos a rir juntos e logo depois com o sol perto de nascer o horizonte se avermelhando fomos para o carro em passos lentos e acabados.

Nessa hora, eu já estava passando mal. Ficamos encostados no carro até que o Gustavo e o Baixinho chegassem coisa de pouco mais de meia hora depois que já estávamos lá. Com todos dentro do carro deitamos os cabelos até em casa em Arraial para descansarmos. Eu não conseguia me manter em pé muito bem e assim que cheguei fui comer alguma coisa.

A geladeira a esse ponto estava bem vazia e dentro de um pote grande estava a sardinha com atum e maionese da quinta descansando tranquilamente com uma cor duvidosa. Pensei que aquela tonalidade era fruto do efeito do álcool como já havia ocorrido anteriormente em outros momentos que não precisam ser explanados agora e mandei bala com quatro fatias de pão de forma, duas delas as pontas.

Comi e fui dormir.

Menos de duas horas depois levantei passando mal, pálido e sem força. Me arrastei pelas paredes até o banheiro e dá-lhe diarreia e vomito. Diarreia e vômito. Vômito e diarreia. Fui pra cama. Menos de cinco minutos estava na privada de novo me esvaindo em merda, literalmente mijando pelo rabo, ardido e tonto. Tonto pra caralho. Pálido. Com frio. Acho que aquela sardinha me sacaneou.

Lá pelas onze da manhã o pessoal foi acordando e Gustavo começou a se preparar para voltar pro Rio, mesmo ainda tendo o domingo. Falei com Tom e Dadi que iria com ele porque eu tava extremamente mal e não tava afim de ficar ali só me fudendo de cagar. Fui cagar pelo menos umas quatro ou cinco vezes antes de realmente pegarmos o caminho de volta pro Rio.

A viagem foi a mais demorada do mundo, com duas paradas para dar aquela barrigada em postos de gasolina, coisa que não quero nem me lembrar quanto mais falar sobre, e entre uma parada e outra eu dormia no banco de trás para que não sentisse os problemas do meu corpo me judiando pelos meus excessos juvenis. Nesse momento nem ‘pequena garota’ me alegrava.

Chegamos ao Rio, e Gustavo me deixou na garagem do prédio dele em Laranjeiras para ir pra casa ali em Botafogo. Descendo o elevador para a portaria aquele embrulho voltando pro estomago, tive que dar um papo no porteiro pra me deixar usar algum banheiro ali na portaria ou então no play do prédio, só sei que onde fosse tinha que ser porque eu não iria aguentar chegar em casa sem me borrar.

Pernas cruzadas. Mão apertando a cintura da calça puxando pra cima. O porteiro não voltava com a porra da chave do banheiro de serviço do prédio, eu já não aguentava mais, cada vez mais pálido, suando frio, tonto e fraco. Quando ele finalmente chegou já estava com o cu ardido de segurar e aquela dor abdominal grosseira me agredindo que nem deixei ele esticar o braço para me entregar, agarrei a chave e fui correndo. O banheiro era minúsculo com aquela privada amarelada encardida com aquele rastro vermelho-marrom escorrendo no entorno dela até a agua do fundo que também não tinha uma cor lá das mais agradáveis com a tábua toda estraçalhada de mal cuidada daquelas que beliscam quando você senta e força as rachaduras e cheio de tralha tipo uns baldes de limpeza que de sujos não limpariam nada e umas vassouras velhas já com as piaçavas esgarçadas caindo a cada jato que eu dava que me doíam tanto que eu chutava a porra toda. Foi foda.

Término o suplício da cagada, me encaminhei a casa. Morava em Botafogo então não levei dez minutos para já estar na porta de casa entrando correndo e dando boa tarde pra minha velha sem olhar pra ela com a voz fraca e deitando na cama para só acordar lá pelas oito da noite fudido e sendo levado para a Policlínica de Botafogo para uma internação de dois dias de soro e remédios para evitar que eu entrasse em estado crítico de desidratação e coma alcóolico no que eu disse pra minha mãe que bebi pouco mas comi uma sardinha estragada que ela muito contrariada fingiu acreditar dada a fragilidade do momento.

    A influência do On the Road foi tão forte, que passei os próximos anos viajando sem destino com dois amigos, matando aulas do colégio, que na época cursávamos o ensino médio, que juntos fazíamos aquele trio de desajustados do próprio livro. A ideia era de que o importante era a estrada e não aonde chegássemos, o importante era estar no movimento, aonde chegássemos, aonde íamos, não importava, como a letra daquela canção do Engenheiros do Havaí, Infinita Highway, do disco A Revolta dos Dândis, de 1987:

“Estamos sós e nenhum de nós

Sabe exatamente onde vai parar

Mas não precisamos saber pra onde vamos

Nós só precisamos ir

Não queremos ter o que não temos

Nós só queremos viver

Sem motivos, nem objetivos

Estamos vivos e isso é tudo

É sobretudo a lei da infinita highway”

 

A gente ia indo e fazendo o que tinha que fazer, satisfeitos, deixando o futuro pro futuro... vimos muita coisa, fizemos muita coisa, e mesmo hoje, adultos e tranquilos, quando nos juntamos só falamos de viajar de novo, de tocar o pé no mundo mais uma vez e sair por aí sem compromisso e desajustados da sociedade consumista como sempre fomos.

Falamos sempre, contamos estórias, de um Cabo Folia loucaço à uma proximidade com o divino no Sana, de Bob Marley à Pequena Garota de Suel e Amaro, de sobras de pizzas das mesas da lanchonete pra tentar comer alguma coisa no jantar à peixes frescos grelhados no tijolo, de dormir quentes em camas de visita na casa de algum recém conhecido à passar a madrugada deitados o capô do carro pra não congelar no meio da estrada, e as lembranças e as risadas e a empolgação e o planejamento motivando o próximo encontro, que como todo bom carioca é sempre o que vamos fazer sem nunca deixar de ser o que empurramos para o próximo que vem.

    Dean Moriarty era a projeção literária que Jack Kerouac fez de Neal Cassady em On The Road, seu romance icônico publicado em 1957 e que o levou ao repente estrelato. No livro, seu alter-ego narrador era Sal Paradise, e a dupla era uma espécie de vilão e mocinho, herói e anti-herói, e vice-versa ao longo de toda a narrativa, sendo de alguma forma ambos a representação daquela geração, chamada de beat.

     Eu não tinha mais de treze anos, e passava sempre que podia sempre que podia uns tempos afastado de casa, tentando entender o que me incomodava no cotidiano que me fazia tão inquieto com as coisas, quando passeando no shopping com meu pai, coisa que ele fazia toda semana, inclusive as que eu passava com ele – separado da minha mãe desde meus três meses, me encaminhei logo pra Sodiler, uma livraria que tinha lá, e hoje nem existe mais. Passava todo o tempo que meu pai passeava no shopping ali na livraria, lendo, lendo, lendo, e nesse dia específico quando eu não passava de treze anos, entrei na livraria e por conta de um relançamento de alguma editora, o On The Road tava lá em destaque numa das mesas de livros.

O livro influenciou gente como Jim Morrison e Bob Dylan, levou John Lennon a criar os Beatles, entre outros, agora tu imagina que não faria na cabeça de um moleque de treze anos inquieto?!?! Comprei o livro e menos de vinte e quatro horas depois já o tinha lido inteiro madrugada adentro. O sentimento, o stimmung, que ele me proporcionou me acompanhou o tempo todo a vida toda até um ou dois anos mais tarde, quando eu e mais dois, optamos por viver uma vida na infinita Highway, e nunca mais paramos (na verdade paramos sim, o que um coração tomado não faz por uma pessoa, ne?!?!? Com exceção do próprio Neal Cassady/Dean Moriarty).

  Parece que já o conhecia há anos antes mesmo de saber seu nome, e me parecia tão real hoje, que bebia comigo, farreava comigo, cantava com...